05 dezembro 2013

Cavarzere, a cidade que renasceu das cinzas no Natal






Minha avó nasceu em Cavarzere na região do Vêneto, um lugar que tem muita história para contar. Em tempos antigos essa planície era totalmente alagada. Com o recuo lento das águas, ao longo dos séculos esse lugar se tornou uma aldeia, onde viveram etruscos e gregos provavelmente desde 4.000 anos a.C.

Quando os antigos romanos chegaram nessas terras, por volta do ano 200 a.C., encontraram extensos campos cultivados e transformaram a aldeia numa colônia romana chamada "Caput Aggeris". Tempos depois a cidade passou a ser chamada "Caput Argelle", em dialeto "Ca' di Arzere" sendo hoje conhecida como Cavarzere.



  


Ainda hoje Cavarzere está em meio a vastos campos agrícolas. O rio Adige, que é o segundo maior rio da Itália, divide a cidade em duas partes. 

A área industrial concentra a maioria das fábricas num dos lados do rio e quase todas as empresas giram em torno do trabalho no campo. A cidade é tão tranquila que nem parece que está bem perto da agitação de Veneza.





Piazza del Duomo


A praça mais conhecida da cidade é a Piazza del Duomo, onde está o Palazzo Barbiani concluído em 1892 e onde funciona a prefeitura. Ao lado do palácio existe uma coluna com o Leão alado de San Marco, que é um símbolo da antiga República de Veneza e tem uma interessante história.





Palazzo Barbiani





Segundo uma antiga tradição cristã, um anjo na forma de um leão alado teria aparecido para o evangelista San Marco quando ele naufragou na lagoa de Veneza e teria dito que ali San Marco seria venerado. Na verdade o corpo do santo foi levado para Veneza por dois mercadores venezianos, que teriam roubado os restos mortais do santo no Egito.





Memorial da torre



Torre Sineira
 Monumento aos mortos na guerra

A alta torre sineira com mais de 60 metros de altura se destaca na paisagem da cidade. Na torre há várias placas em homenagem aos heróis da cidade e o emblema de Cavarzere, que contém um castelo que existiu até o século 16 e foi demolido.




Igreja San Mauro




Igreja de San Giuseppe

No lugar do antigo castelo foi construída a Igreja de San Mauro, que é o padroeiro da cidade. A igreja, como se vê hoje, resulta da reconstrução em 1945, assim como a bela Igreja de San Giuseppe. Nas imediações da cidade há outras igrejas, sendo a Capela Ca Labia uma das mais antigas.





Fábrica de bicicletas

Assim como em várias cidades italianas, um dos meios de locomoção na cidade são as bicicletas. Os italianos gostam de ciclismo e as competições realizadas na Itália reforçam esse prazer de andar sobre duas rodas, além de contribuir para diminuir os efeitos da poluição. Porém em Cavarzere as bicicletas são mais do que um prazer, pois muitas pessoas trabalham nas fábricas de bicicletas Esperia e Bottecchia.





Rio Adige

Na cidade há várias fábricas de processamento de grãos. Atualmente de Cavarzere saem cereais, legumes e outros alimentos que abastecem diversas cidades da Itália, mas nem sempre foi assim. 

Durante sua história, o Veneto foi uma região que sofreu constantes ataques de diversos povos, principalmente dos bárbaros que promoviam guerras para saquear riquezas e alimentos.

Os romanos chamavam de "bárbaros" todos os povos que habitavam fora das fronteiras do império romano e que não falavam o latim, a língua oficial dos romanos. De todos os povos bárbaros, os hunos eram os mais violentos e ávidos por guerras.






De origem mongólica, os hunos eram nômades e percorriam as florestas com suas carroças. Eram excelentes criadores de cavalos que usavam para atacar e saquear aldeias. Quando chegavam numa região espalhavam o medo, pois eram extremamente violentos e cruéis. 

Quando os povos bárbaros atacaram a região do Veneto em 452, a população buscou refúgio ao longo do rio Adige sem saber que estariam se expondo aos perigos das enchentes, pois a região está abaixo do nível do mar. Segundo contam historiadores, no ano 589 ocorreu uma grande inundação que foi comparada aos tempos de Noé.






Durante séculos a cidade sofreu diversas inundações e foi devastada por guerras, além dos terríveis terremotos em 1276 e 1410 que causaram a destruição da cidade. Tudo isso resultou em pobreza, fome e pestes, que dizimaram parte da população e toda a região foi reduzida a pântanos pestilentos.

Quando a paz se estabeleceu em torno de 1600, a cidade cresceu com diversas construções, ganhou igrejas e a partir de 1866 foi incorporada ao reino da Itália. 

Para isolar o rio e proteger a cidade de inundações, em 1888 foi construída a grande muralha nas margens do rio. As escadas permitem o acesso para caminhar sobre o aterro ou para atravessar para o outro lado do rio.





Imigração

A maior imigração de italianos provenientes de Cavarzere e de outras cidades da região do Veneto para a América ocorreu entre os anos de 1889 até 1914. 

Nessa época a natureza se mostrou hostil e os invernos rigorosos que se abateram sobre a cidade impediram o trabalho no campo. Devido à miséria e à malária que se seguiu, muitos agricultores italianos imigraram principalmente para o Brasil.

Um incêndio destruiu a prefeitura e seu valioso arquivo, sendo por isso que as pessoas que buscam documentos antigos em Cavarzere encontram dificuldades.

 Simplesmente os documentos foram destruídos por incêndios ou foram levados pelas enchentes. Naquela época, os cavarzeranos que permaneceram na cidade jamais poderiam imaginar que o pior ainda estava por vir.





Segunda Guerra Mundial
imagem da praça após a guerra em 1945

Em 28 de julho de 1944 a cidade despertou com o barulho ensurdecedor de um bombardeio sobre a ponte do rio Adige. Era a Segunda Guerra Mundial que chegava até Cavarzere. 

Em pouco tempo a cidade foi invadida pelo rugido dos tanques de guerra, só restando aos cavarzeranos a opção de fugir deixando a cidade deserta. 

Durante alguns meses a cidade foi um cenário de guerra, até que em 27 de abril de 1945 cessaram os bombardeiros e a cidade foi libertada da ocupação nazista.

Os sobreviventes que haviam se refugiado retornaram, mas não podiam mais reconhecer a cidade que tinha em seu lugar apenas um monte de entulhos misturados com armas, munições e corpos de soldados alemães que queimavam sobre os escombros. 

Apenas a torre do sino permaneceu intacta à fúria dos bombardeios. Apesar das dificuldades, o cansativo trabalho de reconstrução foi feito graças à abnegação e desejo de renascimento do povo Cavarzerano.





Tragédia em Cavarzere em 1951
Memorial de Cavarzere



Memorial de Cavarzere

Na noite de 14 de novembro de 1951 as águas do rio Pó romperam os diques e se expandiram rapidamente na planície. Dezenas de pessoas desapareceram nas águas, inclusive um caminhão que levava dezenas de pessoas. 

Locais que antes estavam numa colina, se transformaram em ilhas envoltas por ondas e redemoinhos. Algumas pessoas que se refugiaram no telhado das casas e no alto das árvores foram resgatadas; outras acabaram tragadas pelas águas. 

Apesar do esforço das equipes de resgate, muitas pessoas não conseguiram se salvar. Toneladas de milho, cereais, açúcar e legumes foram perdidas. A sensação de tragédia dominou o Delta do rio Pó e quando as águas baixaram as pessoas retornaram à cidade.






Na memória de muitos cavarzeranos restou a lembrança de um  tempo de solidariedade. No natal de 1951, toda a comunidade de Cavarzere se reuniu para celebrar o nascimento de Jesus com o que lhes tinham restado depois da tragédia.

Pela primeira vez o presépio não teve as imagens tradicionais, apenas um cordeirinho vivo no local reservado para o "Bambino Gesù" ou Menino Jesus. Assim renasceu a esperança de construir tudo novamente...




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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.