02 abril 2017

Giudecca




A Giudecca é um conjunto de oito ilhas menores da laguna de Venezia. Localizada a apenas 300 metros da Piazza San Marco, essa é uma área residencial bastante tranquila, que tem a vantagem de estar livre da excessiva presença de turistas. Por isso é muito agradável para apreciar o panorama de Veneza, sem precisar se acotovelar com as multidões que ocupam o centro histórico.




No passado era conhecida como Spina Longa por causa do seu formato que se parece com uma espinha de peixe. Existem diversas hipóteses para a troca do nome da ilha, uma delas é que a ilha passou a se chamar Giudecca devido à presença de muitos judeus (Giudei) na ilha. Aliás, é muito comum os moradores se considerarem como pessoas de Giudecca e não de Veneza, o que explica bastante coisas.

Entender o motivo de todo esse orgulho não é nenhuma dificuldade. Dizem que em 1515 um patrício veneziano propôs ao Senado proibir a entrada dos judeus no centro histórico, por isso eles teriam sido obrigados a se estabelecer na ilha. Somente em 1797, por ordem de Napoleão, os judeus tiveram o direito de transitar pela cidade. Após a Segunda Guerra Mundial a maioria dos judeus foi deportada para campos de concentração em toda a Europa.







O povo da Giudecca se orgulha de sua relação com o mar e a ilha reivindica seu passado pomposo antes da Segunda Guerra mundial. Isso porque Giudecca foi uma grande área industrial no início do século 20, com fábricas, estaleiros e um estúdio de cinema.

Após a guerra a maioria das indústrias entrou em declínio, transformando a ilha num local residencial exclusivo. Discreta, elegante e com muitos prédios de apartamentos residenciais entre áreas verdes, essa pequena ilha é bem diferente de outras partes de Venezia.






Moinho Stucky Hilton: Caminhos agradáveis ladeiam os canais e acompanham a orla da ilha. Percorrendo as margens da Giudecca, conhecidas pelo nome de "Zattere", em muitos locais encontra-se as tradicionais porções de Cichetti e frutos do mar fresquíssimos. Mas também há outras opções, como degustar um bom aperitivo no Skyline Rooftop Bar que está localizado no Molino Stucky Hilton, um hotel de prestígio alojado no antigo moinho do século 19.







Construído entre 1884/1895 pelo fabricante de massas Giovanni Stucky, o prédio  não passa desapercebido por quem chega a Veneza. Situado na extremidade da ilha da Giudecca perto do porto, a impressionante construção neogótica, que originalmente foi erguida para ser uma indústria de farinha, foi uma das maiores fábricas de massas em toda a Itália.

Depois da Segunda Guerra as atividades foram encerradas e a fábrica ficou fechada, até ser adquirida por um grupo empresarial que fez diversas restaurações. No alto da fachada permaneceu o antigo relógio e as esculturas que representam sua antiga atividade. A partir do ano 2000 o complexo foi transformado num enorme hotel, com 380 quartos e um magnifico centro de convenções.





Showroom Mariano Fortuny: Próximo ao Moinho Stucky encontra-se o Showroom Mariano Fortuny, cuja produção textil teve início em 1919. Tendo iniciado suas atividades num estúdio, quando sua produção aumentou ele comprou a propriedade de um antigo convento para construir uma fábrica com especificações exatas.

Até hoje a fábrica funciona no mesmo lugar, com as mesmas máquinas originais e usa os mesmos processos secretos desenvolvidos por Mariano Fortuny. Embora não sejam permitidas visitas à fábrica, o showroom está aberto ao público todos os dias.

Bem próximo dali encontra-se a Fundação Luigi Nono, cujos herdeiros criaram o arquivo histórico em 1993, para promover e preservar os documentos da vida e obras de Luigi Nono. Aberta ao público, a fundação promove cursos, conferências e colabora para a organização de festivais e concertos centrados no trabalho do compositor Luigi Nono.




Igreja de Santa Euphemia: Na orla de Giudecca tem destaque algumas igrejas. Uma delas é antiga Igreja de Santa Euphemia, que tem na porta uma placa lembrando a consagração de 1371. Porém alguns dizem que ela existe desde o século 7. De grande valor histórico, a igreja foi erguida para celebrar o fim da peste que antes tinha afligido Veneza.

Apesar da simplicidade de seu exterior, a estrutura interior em estilo veneziano-bizantino contém algumas pinturas e um suntuoso estuque. As colunas do pórtico foram trazidas da Igreja de SS. Biagio e Cataldo, que foi demolida para a construção do Molino Stucky. Existem ainda outras igrejas, como a Igreja dei Cosme e Damiano e a Igreja de Santa Cruz, que encontram-se desativadas. 





Igreja do Redentor: O grande destaque da ilha é a Igreja do Santíssimo Redentor, que é uma das mais belas obras de Andrea Palladio. Erguida entre 1577/1592, a construção do templo foi em sinal de gratidão pelo fim da terrível praga que causou a morte de um terço da população da cidade, incluindo o Doge Sebastiano Venier.

No verão de 1575 eclodiu em Veneza uma terrível epidemia de peste, que resultou na morte de 50.000 pessoas. Quando o mal parecia invencível, o povo pediu a ajuda divina prometendo construir uma nova igreja dedicada ao Redentor. Logo foram atendidos e a peste cessou.

Rapidamente foi escolhido o local da construção e o povo organizou uma procissão de barcos, uma tradição que permanece até os dias de hoje. Todos os anos em meados de julho acontece uma celebração para relembrar o milagre, quando é novamente feita uma ponte flutuante ligando a ilha ao centro da cidade. Fogos de artifício iniciam o espetáculo, que segue com celebrações e três regatas.





Seguindo a tradição dos capuchinhos, a construção foi feita em tijolos e terracota sem uso de mármores e materiais preciosos. Na fachada um magnífico portal de 1688 é ladeado por colunas. Nos nichos estão as imagens retratando o evangelista São Marcos e São Francisco de Assis. Logo acima estão outras que representam San Lorenzo Giustiniani e Santo Antônio de Pádua. No alto, ladeado por dois anjos, o redentor proclama a fé.

Ao entrar na igreja depara-se com duas belas fontes de água benta, sobre as quais estão esculturas de bronze representando São João Batista e o Redentor. O interior é rico e finamente decorado com pinturas dos maiores pintores venezianos e na sacristia existem pinturas de Paolo Veronese. No altar estão algumas pinturas do século 16/17.




Zitelle: Outra obra de Andrea Palladio é a Igreja de Santa Maria della Presentazione. Consagrada em 1588, a fachada dessa igreja tem duas pequenas torres sineiras adiante da grande cúpula. Além da igreja existe um centro de conferências, que está entre os mais modernos da cidade.

Comumente chamada de Zitelle, a igreja faz parte de um complexo que foi criado no século 16 pelo jesuíta Benedetto Palmi, para ajudar meninas pobres que, por não terem dote, não conseguiam um casamento. Para evitar que elas se rendessem à prostituição, na Zitelle elas aprendiam a costurar e fazer rendas para se manter. 




Casa dei Tre Occhi: Bem próximo da Zitelle está um dos palácios mais curiosos da ilha, a Casa dei Tre Occhi ou Casa DeMaria, que foi construída em 1912 pelo pintor Emilia Mario DeMaria logo depois da morte de sua filha.

Na arquitetura ele tentou representar a família. Segundo contam, as três janelas estão relacionadas com os membros sobreviventes da família: ele, sua esposa e seu filho. Para homenagear a filha, ele mandou colocar a lanceta dupla no alto.

Atualmente a casa pertence a uma empresa que organiza eventos culturais, que manteve o mobiliário original e muitos materiais artísticos e fotográficos relacionados com os acontecimentos da Casa DeMaria.




Villa Heriot: No início do século 20, muitos estrangeiros ricos optaram por fazer de Veneza sua segunda casa, muitas vezes usando terras ocupadas por prédios abandonados. Foi assim que chegou em Giudecca o francês Heriot.

Depois de ter comprado uma antiga fábrica de sabão, Heriot construiu uma bela residência com arquitetura eclética e belos elementos decorativos. Após sua morte, a esposa de Heriot fez a doação do complexo para ser usado como escola pública. Atualmente na Villa Heriot funciona a Universidade Internacional de Arte.




Hotel Cipriani: Na outra extremidade da ilha está o badalado Hotel Cipriani, que funciona numa das residências venezianas mais luxuosas da Giudecca. Situado um pouco distante dos pontos turísticos, é  por onde circulam muitas celebridades que querem manter sua privacidade. Além da magnífica piscina, do hotel tem-se uma bela vista da laguna.


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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.