30 janeiro 2011

Carrara, a cidade do mármore



Carrara, uma comuna italiana da região da Toscana a 100 km de Florença, se estende desde as montanhas até ao mar. Seu nome Carrara provavelmente seja proveniente do termo "kar" -pedra- usado na Antiguidade.





A produção de mármore da cidade é exportada para todo o mundo e também trabalham mármores provenientes de outras partes do mundo. Além das pedreiras de mármore, a cidade tem academias de escultura, artes plásticas, um museu de antiguidades e estatuários. O marmóre está presente por todos os lados, indo até a costa, formando uma praia forrada de mármore.



O mármore de Carrara é famoso desde a Roma Antiga, quando foi utilizado para construir o Panteão de Roma também conhecido como Panteão de Agripa, famoso pela sua cúpula. O Panteão original foi construído em 27 a.C. durante a República Romana. No pórtico está escrito: M.Agrippa.L.F. Cos. Tertium.Fecit que significa: Construído por Marco Agripa, filho de Lúcio, pela terceira vez cônsul.



Muitas esculturas do Renascimento foram construídas com mármore proveniente de Carrara. David de Michelangelo, uma das mais famosas esculturas do artista renascentista, foi esculpida em uma única peça de mármore. O trabalho, que durou 3 anos, retrata o herói bíblico com realismo anatômico impressionante, sendo considerada uma das mais importantes obras do Renascimento e do autor. É uma estátua em mármore e mede 5 metros de altura e devido à genialidade que sempre foi atribuída à obra, escolhida como símbolo máximo da República de Florença.



A Catedral - Duomo di Carrara - é do século 12, revestida internamente de mármore branco.



A Igreja do Suffragio, iniciada em 1686 e remodelada no século 19, tem na fachada tem um portal em mármore em estilo barroco estilo, esculpida por Carlo Finelli e encimada por um baixo-relevo com a "Madonna e as Almas do Purgatório".



O lema de Carrara é "Fortitudo mea em Rota" que em latim significa "Minha força está na roda". A comunidade de Carrara, desde o seu início, teve uma espécie de culto da roda, colocando-a como o principal motivo arquitetônico e decorativo da fachada da catedral, como se fosse uma assinatura. Pode-se supor que a roda idealmente representa tanto um conceito de viagem eterna como uma ferramenta indispensável para o desenvolvimento de Carrara, daí a explicação precisa do lema com base em uma resposta dada por Sibilla Eritreia que, quando questionadas sobre o destino de uma cidade disse: Sorte na roda.



A cidade atual se originou a partir de um bairro que construído pelos romanos para abrigar os trabalhadores nas pedreiras de mármore, no início do século 2 aC. Os trabalhadores da pedreira tinham crenças radicais e o anarquismo e radicalismo geral tornou-se parte da herança do escultores de pedra. De acordo com um artigo do New York Times, muitos revolucionários violentos que haviam sido expulsos da Bélgica e da Suíça foram para Carrara em 1885 e fundou o primeiro grupo anarquista na Itália. Carrara é o berço da Federação Internacional dos Anarquistas (IFA).



Atualmente um dos eventos característicos de Carrara é realizado na Piazza delle Erbe, quando os produtores da Toscana fazem o comércio de produtos orgânicos naturais: compotas, produtos hortícolas, frutas, molho de tomate, mel, carne, salsichas, ovos, queijo, pão típico de castanhas, óleos, produtos fitoterápicos e cosméticos, geléias. São fornecidos pelos fabricantes de Carrara, Massa Lunigiana e províncias vizinhas, vendidos diretamente pelos produtores a preços razoáveis, evitando os custos de transportes e de logística, combinando conveniência, dieta adequada e aproximação do produtor e consumidor.




Mas a Piazza delle Erbe já foi palco para as mulheres de coragem de Carrara. Durante a 2a. Guerra Mundial os alemães determinaram que a população deveria evacuar a cidade e seguir para o mar. Era uma decisão radical e a população de Carrara, na época, era composta quase exclusivamente de mulheres, idosos e crianças. Quando os primeiros cartazes foram afixados nas ruas de Carrara, as mulheres se recusaram a abandonar suas casas e reagiram com tenacidade às dificuldades.

Durante o inverno elas tinham apenas o sal, única matéria prima à disposição para trocar por farinha e outros alimentos com as mulheres da Emilia Romagna. O mar de Carrara dava às mulheres o sal, uma moeda de troca valiosa. Elas ferviam a água até que restasse apenas o sal no fundo das panelas. Com a carga de sal, elas subiram os caminhos da montanha andando descalças sobre os ásperos cacos de mármore afiados e foram em busca de comida empurrando os carrinhos de mão.

Depois de quase duas semanas voltaram exaustas, sangrando, magras mas com sua carga de alimentos. Em meio aos bombardeios, perigos e armadilhas, muitas foram derrubadas por metralhadoras, outras por exaustão e outras tiveram sua carga roubada. Mas com tenacidade, sem parar, fizeram chegar o pão à cidade que tinha fome. Na manhã seguinte, as mulheres se reuniram na Piazza delle Erbe e, segurando faixas e gritando palavras de ordem, que de alguma forma inspiravam a si mesmas, elas seguiram para a sede do comando alemão.

Apesar da insistência e ameaças para que desistissem do seu intento, elas não recuaram. Mesmo diante das metralhadoras, as mulheres gritavam: "Não deixe a cidade!". O comando alemão suspendeu a ordem de evacuar a cidade e as mulheres retornaram às suas casas. A força e coragem dessas mulheres venceu a fome com sacrifício e, apesar dos massacres, devastação e represálias, elas fizeram das montanhas Apuanas, uma cidadela inexpugnável da liberdade. A cada ano, relembram esse episódio com apresentações teatrais em Carrara.



Bagnone é uma provincias de Massa Carrara onde mora a sorte. Em agosto de 2009 um sortudo da cidade levou uma bolada de 146,9 milhões de euros na SuperEnalotto da Itália. É o maior prêmio já pago em loteria da Europa e talvez de qualquer outro lugar.

23 janeiro 2011

Vulcão Etna na Sicilia



O Vulcão Etna situado na Sicilia, está entre as províncias de Messina e Catânia. É um dos vulcões ainda ativos, com 45 km de diâmetro, sendo o maior e mais alto da Itália e da Europa, com 3.322 metros de altura. Ocasionalmente pode ser bastante destrutivo, mas normalmente, as erupções não oferecem grande risco à população que vive nas localidades próximas. Porém a cada erupção, coloca as cidades vizinhas em constante estado de alerta.



Os solos vulcânicos ao redor do Etna propiciam bons campos para a agricultura, com vinhedos e hortas espalhados nas encostas da montanha e em toda planície da Catânia. A última grande erupção do vulcão Etna foi acompanhada de mais de 200 pequenos terremotos em maio de 2008, entrando novamente em erupção em janeiro de 2011.

O Etna já era conhecido na Roma Antiga. Os árabes, que viveram na região por um longo período, chamavam a montanha Gibel Utlamat - "a montanha de fogo", que mais tarde gerou a corruptela Mons Gibel. O nome do vulcão em siciliano é Mongibeddu.





As frequentes e por vezes dramáticas erupções, fizeram da montanha um tema recorrente na mitologia clássica, traçando-se paralelos entre o vulcão e vários deuses e gigantes das lendas do mundo romano e grego. Éolo, o rei dos ventos, teria confinado os ventos em cavernas sob o Etna. Segundo o poeta Ésquilo, a causa das erupções deve à prisão do gigante Tifão sob o vulcão. Outro gigante, Encélado, revoltou-se contra os deuses e foi morto e sepultado sob o Etna.

Diz-se ainda que Vulcano, Hefesto para os gregos, deus do fogo e da forja, tinha sua fundição sob o Etna e atraiu o deus de fogo Adrano para fora da montanha, enquanto os Ciclopes mantinham uma forja em que fabricavam raios para que Zeus os usasse como armas. Supõe-se que no submundo grego, Tártaro, encontrava-se abaixo do Etna. No mundo católico, acredita-se que o Etna entrou em erupção devido ao martírio de Santa Lucia fazendo com que os muçulmanos posteriormente a invocassem contra ameaças do fogo e relâmpagos.


15 janeiro 2011

Lucca, cercada pelas muralhas



Lucca, uma cidade da Toscana, é artisticamente cercada pelas muralhas do renascimento de 1500 e manteve intacto o seu centro histórico medieval. As muralhas tem 5 quilometros, formadas por 12 cortinas e 11 baluardos, e está a 12 metros acima da cidade, sendo transformadas em um passeio alto sobre os tetos das casas, o que permite conhecer e ver a cidade do alto.






Avenida sobre a muralha de Lucca

Mas é andando pelas ruazinhas medievais estreitas de Lucca é que torna possível ver os monumentos de Lucca: as Casas Guinigi com a torre alta, a Praça e a Igreja de S. Maria, a Igreja de S. Francesco, o Museu Nazionale de Villa Guinigi.
A Piazza del Mercato é praticamente o espaço central do antigo Anfiteatro Romano e as casas medievais cresceram apoiando-se sobre os potentes degraus do edifício. A praça representa uma obra prima única da arquitetura italiana e um epísodio urbanístico. Da Torre Guinigui se tem uma bela vista da cidade.





O Duomo dedicado a San Martino e a praça tem ainda as formas românicas originais. No interior de San Martino existe a antiguíssima escultura do Volto Santo, que segundo a tradição representa o verdadeiro rosto de Jesus. Toda a área perto da Igreja de S. Frediano conserva ainda as antigas armações das entradas de muitas lojas e laboratórios artesanais. Ao percorrer a elegante e pitoresca rua, se vê casas e torres, embelezadas por elementos em ferro batito.




Lucca foi fundada pelos lígures numa ilha do rio Serchio, desde o século 5 a.c. e depois ocupada pelos etruscos. No século 13, era um importante centro de produção de lã e centro financeiro internacional. No entanto, tendo caído sob o controle dos Pisanos no século 17, perdeu progressivamente a sua importância econômica, além das pestes que atingiram a região. É a terra do grande músico Puccini, que compôs Madame Butterfly e La Boheme. Hoje é uma das maiores produtoras de azeites e vinhos da Itália.

10 janeiro 2011

Bobbio e sua ponte corcunda



Na Emilia Romagna, bem próximo a Piacenza, está Bobbio com sua Ponte Gobbo - ponte corcunda - assim chamada devido ao seu perfil irregular que atravessa o rio Trebbia. Nas duas edículas do arco maior estão figurados Nossa Senhora da Ajuda e San Colombano.






A ponte também chamada de "Ponte del diavolo", guarda uma lenda.
Para Bobbio era muito importante uma ligação com a outra margem do rio, que dava acesso às salinas termais, às termas da época romana, os fornos que produziam material para a construção, a ligação com a parte genovesa das posses do monastério.

Por causa do caráter torrencial, de cheias imprevistas e devastantes e com frequente deslocamento do leito de pedras do rio, tornava-se problemático atravessá-lo, sobretudo nos meses de Inverno. Assim, a ponte foi sendo construída aos poucos, com as cheias do rio obrigando a estender os arcos até a margem onde se encontra a cidade que ainda hoje só permite o transito à pé ou de bicicleta.




Diversas são as lendas que a construção de pontes na Idade Média, pois a construção e manutenção de uma ponte naquela época era obra de grande engenho. Habitualmente tinham como protagonista o diabo, pois juntar dois lugares que Deus ou a natureza quis separar, era visto por muitos como uma obra diabólica.

Colombano, era um monge irlandês que entre tantas outras igrejas e monastérios, construiu também a abadia e o monastério de Bobbio, na província de Piacenza, em torno da qual se desenvolveu a cidade. As lendas que resistem até hoje:


Um dia o diabo para chamar a atenção exibiu uma belíssima grade de ferro. Muitos ferreiros correram para ver e tentaram produzir uma grade igual, mas o segredo na confecção dos nós e a fineza do trabalho era impossível de imitar. Colombano idealizava a construção de uma ponte sobre o rio Trebbia, mas infelizmente o monge não conseguia coletar todo o dinheiro que necessitava para construir a ponte – que era considerada uma coisa do diabo.

Naquele momento o diabo se apresentou: “se você me prometer me dar a primeira alma que passar sobre a ponte, eu te ajudo a construi-la”. O monge concordou. Assim o demônio, acreditando ter derrotado Colombano, construiu a ponte. Uma vez concluída, Colombano jogou sobre a ponte um pedaço de pão e deixou que um cão corresse para abocanhar o pão. Com amargura e desilusão, o diabo insultava Colombano que seguia seu caminho.

Quando chegou ao Monte Penice, encontraram uma mulher que carregava um pouco de arroz no avental. Sem dizer nada, Colombano pegou um punhado e jogou contra o seu perseguidor. Os grãos de arroz invés de atingirem o perseguidor, se transformaram em pedras pretas formando grutas que aprisionaram o diabo. Essas rochas pretas ainda existem ainda e são chamadas "Pedras do diabo". San Colombano se tornou o protetor de Bobbio.


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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.