26 janeiro 2013

Carpi: traços medievais e receitas tradicionais




Carpi é uma antiga cidade da Emilia Romagna com traços medievais e palácios renascentistas, que contrastam com a modernidade de seus bairros. Situada a poucos quilômetros de Modena, a cidade foi fundada no século 6, sendo um museu a céu aberto e tendo muita história para contar, além da arte, cultura e muitos sabores obtidos através de antigas receitas caseiras.







Piazza dei Martiri: O centro histórico é um dos principais do Renascimento italiano no século 16, reunindo um vasto complexo de construções em estilo barroco e neoclássico com ricas decorações.

A Piazza dei Martiri é a principal da cidade e onde estão os principais monumentos de Carpi. Considerada como uma das mais belas praças da Itália, ela é marcada pelo longo pórtico com sua sucessão de arcos, uma característica de muitas cidades da Emília, que além de proporcionar um cenário especial torna possível caminhar protegido da chuva e neve no inverno ou sol quente do verão. 



Santa Maria in Castello ou La Sagra


Igrejas: A cidade se expandiu, desde as primeiras décadas do século 10, em torno da antiga igreja dedicada a Santa Maria, também chamada "La Sagra", onde estavam concentrados os poderes civis e eclesiásticos.


Igreja São Francisco de Assis
Catedral Santa Maria Assunta

Em toda cidade há também belíssimas igrejas em estilo barroco, como a Catedral de Santa Maria Assunta, a Igreja de San Francesco do século 13, a Igreja de San Bernardino com seu altar dourado, a Igreja de San Nicoló e outras. Em muitas igrejas há belos afrescos e obras de valor artístico considerável.
  





Palazzo del Pio: O Palazzo dei Pio, vulgarmente conhecido como castelo, é o grande destaque da Piazza Martire. Ladeado pela Catedral de Santa Maria Assunta, que tem mais de 300 anos e pelo Teatro Comunale construído em 1861, ao longo dos tempos foram sendo adicionados outros prédios ao velho castelo, transformando-se no grande complexo que vemos hoje.








Atualmente no palácio funcionam vários museus, sendo mais de 14.000 metros quadrados com pátios, varandas, salas, galerias, capelas, biblioteca e uma parte destinada a atividades para os jovens. Existem três rotas de exposição. O Museu do Palácio e o Museu da Cidade contém uma série de exposições cronológicas que narram a história de Carpi e o patrimônio artístico e cultural encontram-se no Museu Cívico.



 
 


A cidade foi um domínio da poderosa e lendária Condessa Matilda Canossa. Após sua morte em 1115, por não ter deixado herdeiros, suas propriedades foram transferidas aos domínios da Santa Sé. A Dinastia Pio era uma linhagem feudal que teve soberania sobre a cidade e territórios vizinhos entre os séculos 14 e 15, tendo transformado a modesta cidade em um lugar de prestígio, até a cidade ser incorporada ao território da família Este de Ferrara em 1530.

Alberto Pio III, que governou Carpi até 1530, foi um amante da literatura e das artes, tendo contribuído muito para o desenvolvimento da cidade nos moldes renascentistas, como a Igreja Colegiada da Assunção e a Loggia do mercado de grãos. Muitas construções foram interrompidas quando a cidade foi entregue aos duques de Ferrara. Devido ao terremoto que atingiu a cidade em 2012, alguns monumentos foram interditados para visitação.




Museu dos deportados de Carpi

Museu dos Deportados: Uma parte do castelo é reservada ao Museu dos Deportados, que mantém a memória dos horrores da Segunda Guerra Mundial. A poucos quilômetros de Carpi está o antigo campo de concentração de Fossoli, para onde eram enviados prisioneiros de guerra e judeus italianos que seriam deportados para os campos da morte em Auschwitz.



Campo de concentração de Fossoli



Entre 1942 a 1944 foi a fase mais trágica quando milhares de prisioneiros partiram dessa área diretamente para as câmeras de gás. Depois da guerra o campo foi usado por algum tempo pelos refugiados e órfãos da guerra até ser abandonado. Recentemente o governo restaurou o campo para preservar a memória dos trágicos acontecimentos daquele campo, que funciona como extensão do Museu dos Deportados do castelo de Carpi.







Teatro: O Teatro Comunale de Carpi é um dos mais importantes da Emilia-Romagna. Situado na Piazza dei Martiri, suas linhas neoclássicas resultam de uma reestruturação em 1861 de um antigo palácio que pertencia ao palácio.  O interior do palácio é deslumbrante, tendo no teto uma bela obra artística.







Piazza Garibaldi: Essa é outra praça de Carpi, muito ampla e com uma sucessão de arcos que dá acesso a outras áreas da cidade, onde encontram-se avenidas largas, arborizadas e margeadas por prédios modernos. Excetuando o centro histórico, belas árvores e jardins enfeitam as ruas e pracinhas, tornando o passeio pela cidade muito agradável.  





Parmegiano Reggiano: Os arredores da  cidade reservam sabores inigualáveis dos produtos típicos de Carpi, que tem suas raízes no passado e chegou aos nossos dias através das receitas e tradições familiares. Um desses produtos é o queijo Parmegiano Reggiano, que mantém a mesma receita por mais de 8 séculos de história.

Ainda hoje mantém a mesma aparência e fragrância graças aos métodos de processamento que se mantiveram inalterados.  Em Carpi há centros de produção desse precioso queijo, sendo que quando é produzido fora de área de produção tradicional é chamado Grana Padano.

Na região dizem que fazer um verdadeiro Parmigiano é uma arte devido ao seu longo processo de maturação. Usado em inúmeros pratos como condimento ou recheio, até mesmo a casca é valorizada e aproveitada para dar sabor a caldos e cozidos. 





Cotechino di Modena: Uma delícia dessa região é o Cotechino di Modena, uma especialidade que foi inventada nos anos de 1500, como uma forma de preservar a carne de porco. Outra especialidade é Zampone. O presunto de Modena tem origens muito antigas. Em Carpi há também muitas massas caseiras recheadas com diversos ingredientes, que faz a fama dos Tortellini de Carpi.

Nocino: Especialidade da terra, Nocino ou Licor de nozes tem uma preparação cheia de detalhes. Segundo a tradição, a receita do licor deve aguardar a maturação exata do fruto da nogueira. Não pode ser colhido antes, porque não tem gosto. Não pode passar da época, porque se torna lenhosa. Os frutos devem ter a casca verde e ser levados em infusão. Além disso, só pode ser filtrado na lua minguante e ser deixado em um vidro escuro para que mantenha o verdadeiro sabor das nozes.




Festival de Lasagna e Lambrusco: Todos os anos em Carpi é realizado o Festival de Lasagna e Lambrusco. Inconfundível na cor, aroma e sabor, o Lambrusco é a combinação perfeita para os pratos típicos de Carpi.

Especialmente a lasanha, ao longo dos tempos foi ganhando novas versões de receitas caseiras, dando origem à Lasagna a Bolognesa. Os gregos e os romanos chamavam de "lasagna" as tiras de massa cortadas em quadrados, que eram cozidas e temperadas ou recheadas com legumes e queijo. Essa foi uma iguaria muito apreciada por grandes personagens da antiguidade como Platão, Sêneca, Cícero e outros. 



23 janeiro 2013

A espada excalibur de Siena


Nos arredores de Siena existem pequenos e antigos vilarejos entre rios, planícies e colinas que mantém intactos os vestígios de sua história. São muitos palácios e castelos que fazem parte do glorioso passado de Siena e ainda mantém no ambiente o perfume medieval e o espírito religioso que deu origem a muitas igrejas. Terra de contos de fadas e lendas, antigas tradições ainda estão presentes nos costumes do dia-a-dia.


Os vilarejos como Chiusdino e Monticiano estão imersos em grandes bosques, castanheiros, carvalhos e outras espécies. Essa é a parte mais verde da Toscana, protegida como reserva natural e onde há restrições de desmatamento. Nesses bosques muitos vão em busca de trufas brancas e cogumelos comestíveis. Consideradas como um diamante gastronômico, a caça às deliciosas trufas vão de setembro a dezembro sendo um dos ingredientes mais caros do mundo. 


A entrada nesses vilarejos estimulam a imaginação e a emoção de estar fora de seu próprio tempo, que se torna maior ainda quando se chega à Abadia de San Galgano. Solitária no campo e ao final de uma estrada de cipestres, a imensa construção cisterciense foi iniciada em 1218. 

O declínio da povoação monástica foi determinado pela fome em 1329 e depois pela peste bulbônica em 1348. O que a distingue a Abadia e faz parte do seu charme é a ausência do telhado que uma vez existiu mas foi vendido. À noite os efeitos de luzes criam um majestoso cenário para shows e eventos musicais. 


A Capela de Montesiepi situa-se numa colina nas proximidades da Abadia. Construída em 1183 por ordem do bispo de Volterra, é caracterizada pelo padrão redondo feito de tijolos. Ambas paredes da cúpula expressam um simbolismo que recorda memórias de etruscos, celtas e até mesmo de templários. Esta igreja foi construída em memória a San Galgano e está decorado com uma abundância de símbolos misteriosos e detalhada que se relacionam com o calendário solar.   

San Galgano nasceu em 1148 no pequeno vilarejo de Chiusdino e numa época da Idade Média cheia de violência e abusos. Com seu vigor e vitalidade, Galgano vivia para fazer valer seu espírito de dominação. Assim como outros cavaleiros, Galzano vivia sua juventude de forma frívola e arrogante. Com o passar dos anos, Galgano começou a perceber seu modo de viver e sentia angústia por não ter um propósito de vida. 


Neste estado de espírito, Galgano resolveu mudar de vida e se retirou para o Montesiepi. Revoltado com as atrocidades, ele abandonou o mundo comprometendo-se a viver como eremita. Aos 32 anos, como um sinal tangível de renúncia perpétua de todas as formas de violência, tomou a espada que antes ele usava e a cravou numa rocha com a intenção de usá-la como uma cruz para rezar. Um ano depois, Galgano faleceu e 4 anos mais tarde foi declarado santo pelo Papa. A espada é conservada como uma relíquia de San Galgano.

Na época medieval criaram-se muitas lendas sobre objetos tidos como mágicos e milagrosos. Alguns estudiosos apontam que existem detalhes semelhantes entre a história de San Galgano e a lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Tavola Redonda, que associa o imaginário celta e cristão numa série de episódios místicos, mágicos e fantásticos sobre a vida do rei bretão. 

O lendário Rei Arthur foi descrito na literatura medieval como um rei que venceu os saxões e estabeleceu um império composto pela Grã-Bretanha, Irlanda, Islândia e Noruega. Os Cavaleiros foram os homens premiados com a mais alta Ordem da Cavalaria na corte e a távola ou mesa foi criada no formato redondo para que não tivesse cabeceira, representando assim a igualdade de todos.   

Dentre suas aventuras, conta-se que Excalibur era uma espada mágica encravada numa rocha por um antigo rei. Brilhando ao sol, poderia ser removida somente por aquele que iria ocupar o trono da Grã-Bretanha. Muitos tentaram, porém ela não se movia. Quando surgiu o jovem Artur, ele conseguiu retirá-la facilmente. Diante de tal milagre, ele foi coroado e assumiu o trono. 

19 janeiro 2013

Reggello, um dos belos caminhos da Toscana



 


Entre Firenze e Arezzo há uma antiga estrada construída pelos etruscos. Quando os romanos conquistaram a Etrúria deram à estrada o nome de "Cassia Vetus", tendo sido durante a Idade Média uma das principais estradas que levavam os peregrinos de Firenze a Roma. Ao longo da estrada surgem inúmeras aldeias medievais, torres, castelos, antigas igrejas e casas de fazenda entre cipestres, uma característica marcante da Toscana. 

 
Dentre as pequenas comunidades que pertencem à Comunidade de Montanha Fiorentina tem destaque Reggello, que é considerada a capital do azeite ao redor de Firenze. A cidade, que era chamada de Castelvecchio di Cássia, se expandiu por estar desde a antiguidade na rota comercial entre Firenze e Arezzo. 


 

Sua construção mais importante é a Pieve di San Pietro que é uma mais interessantes igrejas do Val d'Arno pela qualidade das esculturas e seu estilo românico. Consagrada em 1073, a igreja conserva algumas obras artísticas raras.

Nas imediações há inúmeras igrejas, entre elas a Igreja San Pietro de Pitiana que foi construída antes do ano 1000, a Igreja de San Clemente em Sociana e a Igreja de Sant'Agatha em Arfoli que é a padroeira das mulheres que amamentam.

 

O Castello Bonsi está numa uma posição estratégica no meio das colinas verdes entre o Parque de Sammezzano e a Igreja de St. Agatha, uma bela propriedade embelezada por belas vinhas e olivais. Algumas vezes aberto ao público, pode-se visitar toda estrutura da prensagem de azeitonas para obter o melhor azeite da região. 
 

 

Mosteiro de Vallombrosa: O Mosteiro de Vallombrosa é um grande complexo situado numa bela floresta no entorno de Reggello. Em 1008 um nobre florentino saiu de Florença junto com um companheiro para encontrar um lugar mais isolado. Ele encontrou uma pequena ermida que se tornou o mosteiro.

Em 1015 os monges elegeram-no como seu superior nascendo daí uma nova congregação. Ao longo do tempo a ermida foi sendo ampliada e hoje no suntuoso complexo funciona a Congregação dos Beneditinos onde há uma série de mobiliários antigos.

No princípio do século 20 havia muitos hotéis e vilas na região que recebiam importantes hóspedes. A fama do complexo Vallombrosa-Saltino como um recurso para tratamento de saúde teve seu auge no início dos anos 1900 mas declinou após a guerra. A área arborizada de Vallombrosa é uma área protegida por ter uma valiosa coleção de plantas de interesse científico. 

 
 


Castello di Sammezzano: Imerso num bosque de sequóias, o Castello di Sammezzano é uma magnífica obra arquitetônica com uma extraordinária decoração hispano-mourisco. Construído sobre ruínas romanas de 200 a.C. o castelo pertenceu a várias famílias até ser comprado por Sebastiano Ximenes d'Aragona, um rico comerciante que fez fortuna no comércio com as Américas.

Depois de sua morte o castelo foi herdado por Ferdinando Panciatichi Ximenes d'Aragona, um  visionário e excêntrico que em 1889 projetou a transformação do castelo em “um sonho das mil e uma noites”. Com uma mistura de estilos, do mouro ao neogótico, o castelo tem inúmeras salas com nomes majestosos e decoradas com colunas, capitéis, arcos, cúpulas e arabescos coloridos.

 
 

 
 
 


O Marquês Panciatichi tinha a ideia de unir a arte ocidental e oriental. Apesar das críticas por sua ideia considerada bizarra para a época, ele lutou durante vários anos para concluir sua ideia. O curioso é que Ferdinando nunca tinha à Europa Oriental e toda arquitetura foi estudada apenas em livros, determinando o caleidoscópio de cores e formas extraordinárias.

Autodidata e intelectual ele foi mal compreendido por seus contemporâneos tendo vivido as esperanças e as desilusões de quem acreditava na Unidade da Itália. Decepcionado com a política, dedicou-se ao seu projeto e devido às zombarias ele deixou várias mensagens escritas nas paredes. 

 
 


Junto ao castelo também projetou um grande parque com árvores e plantas exóticas onde está o maior grupo de sequoias gigantes na Itália. Algumas construções serviam para embelezar o parque, como uma caverna artificial com uma estátua de vênus, piscinas, fontes e outras criações com azulejos decorativos.

Quase ao final da obra o marquês foi acometido de uma paralisia progressiva tendo falecido em 1897. O castelo ficou abandonado tendo sido saqueado e perdido os móveis, lustres, adereços, estátuas etc.

Depois da guerra, o castelo foi usado como um hotel de luxo até encerrar suas atividades em meados de 1990. O complexo permaneceu abandonado por 20 anos e recentemente formou-se um comitê com o objetivo de restaurar e promover o castelo por ocasião dos 200 anos de nascimento do marquês que acontecerá em 2013. 


 
 


Valle del Borro da Caverna: A região do Val d'Arno é cortada pelo Rio Arno que deu nome ao vale e percorre toda a região da Toscana. Entre o rio Arno e as colinas há várias formações de argila com centenas de metros formando desfiladeiros.

Chamados de Le Balze, foram formadas por erosão através do tempo estendendo-se por uma grande área. A grande atração é o "Valle del Borro da Caverna", sendo um local muito visitado pelo pessoal que sai passeando de bicicleta, mas também pode-se fazer o percurso em caminhadas. 

 

Monalisa: Próximo a Arezzo, na Reserva Natural de Buriano vivem muitas espécies raras da vida selvagem.  Sobre o Rio Arno a velha Ponte de Buriano construída pelos romanos é um trecho da estrada que coincide com a Rota de Vinhos de Arezzo.

Talvez a ponte passasse desapercebida se não aparecesse na famosa pintura de Leonardo da Vinci: Monalisa ou La Gioconda. Por trás do sorriso da Monalisa ao lado direito há a imagem de uma ponte com as mesmas características de Buriano.

Do lado esquerdo aparecem as montanhas de argila que pertencem à paisagem toscana. A reconstrução da perspectiva permitiram definir o ponto de observação que foi localizado no castelo de Quarata, uma aldeia bem perto da ponte que era bem conhecida de Leonardo da Vinci. 


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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.