13 fevereiro 2014

Porto Viro, a capital do Delta del Pó no Veneto






Chamado pelos antigos gregos de Eridanus, o rio Po nasce na divisa com a França e percorre todo o norte da Itália. Antes de chegar à sua foz na região do Vêneto, o rio se divide em centenas de canais e cinco cursos principais formando o grande Delta del Pó no encontro com o Mar Adriático.







Delta del Po: Através do tempo essa região passou por inúmeras mudanças, seja através da intervenção humana, seja pelas inundações provocadas pelos rios. É a maior área inundada da Europa, tornando o Delta um patrimônio natural extraordinário.

Abrangendo dois parques regionais, um no Vêneto e outro na Emilia Romagna, o cenário multicolorido é encantador. O azul do céu claro se reflete no rio e se mistura com o verde da exuberante vegetação pontilhada pelas cores das aves. Quem passa a noite num dos hotéis da região, tem o privilégio de acordar com a sinfonia do canto de centenas de aves.





No outono, torna-se especialmente marcante para quem observa os pássaros com seus voos espetaculares sobre as águas. Devido à sua grande extensão com diversas ramificações do rio, lagoas e uma vasta vegetação, o Delta del Pó tornou-se o abrigo ideal para milhares de aves, mamíferos, répteis e peixes.

Pequenos barcos e canoas trafegam pelas estreitas passagens entre os juncos e levam a bancos de areia, onde numerosas colônias de aves aportam nas faixas de terra que se formam na maré baixa. A presença de aves é tão reveladora, que fazem do Delta o mais importante parque ornitológico italiano, onde centenas de ornitólogos montam seus equipamentos nessa época para captar as melhores imagens dos pássaros.

É no Delta que as aves provenientes de diversos lugares chegam para fazer seus ninhos, como a garça com seu voo lento que mais parece obedecer a uma coreografia, os mergulhões, rouxinóis, andorinhas, gaivotas, patos, marrecos e outras aves migratórias, que tornam o Delta um cenário de rara beleza.






As excursões ao longo das seis ramificações do rio Pó revelam os mistérios da vida selvagem e permitem descobrir a maravilhosa história que envolve essa região. Navegar pelo Delta del Po significa descobrir lugares inesquecíveis e ter a mesma sensação que sentiram os venezianos que habitaram essas terras há pelo menos 3.000 anos atrás.

Depois vieram os etruscos, gregos e os romanos que criaram a Via Popilia em 132 a.C. ligando Ravenna a Aquileia, que foi a primeira colônia romana da região. Foram esses povos que desenvolveram a pesca e as salinas dando ao Vêneto o controle total do comércio na antiguidade.

Considerado um lugar mágico que se transforma a cada época, percorrer o Delta significa descobrir  uma das mais esplêndidas paisagens da Europa. Na primavera as belas cores da natureza invadem todo o delta e no verão lhe dá um toque brilhante. Nas lagoas típicas das salinas onde a salinidade é superior, em determinadas épocas surgem flores que colorem o Delta de lilás.




Polesine: O Polesine, chamado de Pulésan no dialeto ferrarese, é o nome dado à região da província de Rovigo situada entre os cursos dos grandes rios Adige e Pó, sendo o local onde a maior parte de água doce dos rios flui para o mar. O termo Polesine surgiu de Pollicinum na época medieval, que significa terra pantanosa e foi definido pelo Ducado de Ferrara que governou a região entre 1200 a 1500.
Na época o Duque Ercole D'Este I encomendou um projeto de recuperação das terras pantanosas e expandiu o Delta, porém entrou em confronto com Veneza em 1482, cujo conflito ficou conhecido como a Guerra do sal. Apesar de ser hoje um produto de baixo valor, na antiguidade o sal foi motivo de verdadeira obsessão e guerras.



Extraído principalmente das águas do mar, o sal tornou-se imprescindível para a vida humana quando os povos incluíram os vegetais na alimentação. Essencial para a conservação de alimentos, na antiguidade o sal adquiriu valor de moeda e alvo da cobiça de governantes. De tão essencial, os romanos garantiam aos plebeus o direito ao sal, cujo lema era "Sal para todos". Foi nessa época que surgiu o nome Salada, que significava o costume de salgar os vegetais.

A ausência do saleiro numa mesa romana era um sinal de inimizade. E tinha tanto valor que os soldados eram pagos sal, de onde vem o termo Salário. Mas o sal ganhou maior importância na Idade Média devido à ambição de alguns membros da Igreja Católica. Vários monastérios eram localizados ao lado de minas de sal e muitas cidades surgiram próximas de campos de extração salina; Roma é um exemplo.

Veneza era um Estado independente e não produzia sal, mas deve boa parte de sua beleza aos lucros com a intermediação do comércio do sal. Embora a Sereníssima República de Veneza detivesse o monopólio do comércio de sal, Ferrara controlava as salinas de Comacchio. Durante muito tempo o Papa Sisto IV - o pai da inquisição - ambicionava tomar as terras de Ferrara para incorporá-la ao patrimônio de sua família. Apesar do papa ter mudado de ideia, Veneza continuou a guerra.




Sem anuência do papa, Veneza selou um tratado de paz com o Ducado de Ferrara obrigando a entrega da região de Rovigo e o Delta do Pó a Veneza. O Papa não ficou satisfeito com os termos do tratado e, diante de sua ira violenta, teve um ataque cardíaco e morreu em 1484. Em 1597 o último Duque de Ferrara faleceu sem deixar herdeiros diretos. Esse foi o pretexto usado pelo Papa Clemente VIII para se apossar da cidade e expulsar o resto da família Este de Ferrara.

Corte de Porto Viro: Temendo que as sedimentações pudessem aterrar a lagoa de Veneza e seu comércio através da navegação, nobres venezianos que tinham investido na região de Veneza resolveram desviar o curso do rio. Assim foi realizada uma impressionante obra de desvio do curso principal do rio Po.

A colossal obra não teve igual realizada naquela época. Ninguém poderia acreditar que seria possível conceber e tornar viável tal empreendimento, abrindo um canal com mais de 7 km de extensão.  O corte de Porto Viro foi realizado entre 1600 a 1604, redesenhando o Delta del Pó.

Na época surgiram muitas lendas a respeito do desvio do rio, mas na verdade desde a descoberta das Américas em 1492 as rotas comerciais que tinham tornado Veneza uma potência tinham sido alteradas. Com o declínio do comércio marítimo, nobres venezianos foram obrigados a criar novas fontes de renda.  




Contarina/Donada: Utilizando a fortuna que tinham acumulado por meio do comércio, os nobres venezianos investiram em terras agrícolas. Foi a partir dessa época que dois nobres e ricos venezianos, Contarini e Donà, obtiveram a concessão de uma área na província de Rovigo próxima a Veneza.

A nobre e tradicional família Contarini era uma das famílias venezianas mais influentes, tendo em seu clã personalidades eclesiásticas, políticas e militares. Eles tinham inúmeras propriedades e cofres cheios de riquezas que guardavam em casa. Eram tão ricos que emprestavam dinheiro para a metade do povo da Europa, por isso ninguém se atrevia a atacá-los.

Ao construírem seus palácios próximos ao rio, dali surgiram as aldeias de Contarina e Donada. Três séculos depois as duas comunidades tornaram-se parte do Império Austríaco e foram unificadas, recebendo o nome de Taglio di Porto Viro.

Passado alguns anos, devido ao crescimento da cidade e temendo a força política de Porto Viro, por decreto imperial de 1937 a cidade foi novamente dividida recriando as cidades de Contarina e Donada. Em 1 de janeiro de 1995, por um referendum popular, as cidades foram novamente unificadas recriando a antiga cidade de Porto Viro.



Porto Viro:  É a principal cidade do Delta del Pó, onde as cores, fragrâncias e aromas caracterizam um ambiente único. Situada às margens do Rio Pó, a cidade é silenciosa e tranquila, onde é possível caminhar ou pedalar lentamente uma bicicleta por suas ruas planas.

As várias praças são marcadas por monumentos e belos palácios, como a prefeitura na Piazza della Reppublica que marca o centro exato entre Contarina e Donada. Caminhando pela cidade descobre-se extraordinárias construções e várias igrejas que mostram a marcante religiosidade dessa região.

Igreja Santa Maria della Chiesa
Igreja San Bartolomeo de Contarina
Igreja Santa Maria della Visitazione de Donada


Igrejas: Atualmente a celebração da festa da padroeira de Porto Viro é realizada todos os anos em 11 de outubro, mas nem sempre foi assim. Segundo contam, quando ocorreu a fusão das duas cidades havia uma dúvida qual seria o santo padroeiro da cidade.

San Bartolomeo era o padroeiro de Contarina e Santa Maria della Visitazione a padroeira de Donada. Para resolver o impasse foi escolhida a Igreja dedicada a Santa Maria della Chiesa. Situada numa praça muito espaçosa, a celebração da padroeira inclui, além das celebrações religiosas, outros eventos culturais e esportivos, terminando com a degustação de produtos típicos da região.

A Piazza Marconi é ladeada por palácios e tem no centro a bela Igreja de Santa Maria della Visitazione com sua torre sineira. Construída em 1858, ao lado existe um monumento dedicado aos mortos nas guerras.

Na Piazza Mateotti está a Igreja de San Bartolomeo. Construída pela família Contarini no século 18, a igreja possui três painéis de um autor desconhecido que ilustram a vida, o martírio e a glória do santo. No interior da igreja há cinco capelas com altares em mármore veneziano, aproveitados da antiga igreja que foi demolida sob as ordens de Napoleão e que situava-se bem perto da atual, quase em frente ao complexo da Villa Contarini.




Villa Contarini:  Na bela construção atualmente funciona o sofisticado Hotel Villa Carrer, sendo um dos preferidos por turistas que estão em viagem pela região. A vila foi construída no século 18 pela família Contarini para dar emprego a muitos camponeses numa época de crise e desemprego.

Em 1817 a propriedade foi transferida para a família Nicoletti. Após o casamento de Gina Nicoletti com Gaetano Carrer a villa adotou o nome de Carrer. Gaetano pertencia a uma família de grande cultura e em sua sala estar foram recebidas importantes personalidades da época. As visitas eram atraídas principalmente pela presença do beato e filósofo Rosmini. Conclamado como um dos maiores pensadores cristãos, em 2007 o Papa Bento XVI aprovou a beatificação de Rosmini.

 
Cà Cappello
Cà Cappello

Igreja de San Giovanni Battista
Museo dela Corte

Museo della Corte: Além das famílias Contarini e Donà outros nobres se estabeleceram na região nos anos de 1600, como as famílias Pisani e Cappello que deram nome a alguns lugarejos nas proximidades de Porto Viro.

Em Cà Cappello está a antiga Igreja de San Giovanni Battista construída no século 17. Ladeada por uma torre sineira, uma parte das estruturas existentes é usada pelo museu etnográfico. Chamado Museo della Corte, está localizado dentro de um antigo complexo onde foram coletadas as tradições e reconstituídos vários tipos de ambientes típicos da comunidade agrícola Polesine.

Há também uma exposição de centenas de aves empalhadas. A construção foi realizada pela nobre família veneziana Cappello. Originalmente cercada por um muro de tijolos, ainda pode-se admirar a casa senhorial, os armazéns e outras construções. Construído num estilo camponês no século 17, o portão da entrada principal ainda contém o emblema da família.



Museo del Miele: Essa é outra atração em Ca' Cappellino, que trata do mundo das abelhas e suas incessantes atividades para a produção do mel, própolis, geleia real e cera de abelha. Situado no interior do Centro de Apicultura, também é usado pelos produtores para extrair e embalar o mel.

O melhor dessa visita é a doce possibilidade de degustar os vários tipos de mel produzidos no Parque Delta del Po. No Museu há uma extensa exposição de objetos, velas de cera, objetos feitos de madeira e de taboa, chamada pelos venezianos de paiera. Em setembro é realizado na cidade o Festival de Mel do Polesine.




Arroz do Delta: Devido ao constante alagamento, essa região tornou-se o lugar ideal para o cultivo do arroz, que cresce no rico solo submerso sem adição de fertilizantes.  Há dezenas de empresas que cultivam o arroz e garantem que o arroz dessa região é de melhor qualidade.

Atualmente os extensos arrozais cobrem áreas que no passado foram pantanosas e insalubres. O cultivo começou com a semeadura nos pântanos, mas  graças à visão dos Duques de Ferrara que governavam a região nos anos de 1400, os pântanos foram saneados. Além de evitar doenças como a malária e pelagra, tornou o Polesine um grande cultivador de arroz.

Dizem que "il riso del delta do Pó", por ser cultivado em água saloba, além de ter um grão maior tem também alto teor de proteína, o que o distingue de outros. Essa reputação do arroz do Delta del Pó deu origem às feiras e festivais que se realizam anualmente na região, como a famosa "Giornate del riso del Delta del Pó".

Marina de Po Levante
Marina de Po Levante

Marina de Porto levante: Através da Via Colombo, passando por extensos campos cultivados, chega-se à Marina de Porto Levante, uma típica vila de pescadores que mantém suas redes de pesca secando ao sol. Situada em meio ao Delta do Pó, é o lugar ideal para quem gosta de estar junto à natureza, ama o mar e adora a pesca em alto mar.  

Essa é a melhor maneira de conhecer a realidade da região e saborear pratos típicos do Polesine. Há uma significativa quantidade de fazendas e restaurantes espalhados pela região, que são especializados em tradições culinárias.

A cozinha Pula é simples, genuína e usa produtos locais com os peixes, frutos do mar, legumes, arroz, além de inúmeras opções de carnes. Os pratos de peixes são imperdíveis. Os Polesanos são mestres em grelhar, principalmente o bacalhau. Em cada prato há o aroma e o sabor de uma terra generosa banhada pela força das águas, onde a polenta tem um lugar especial...





3 comentários:

  1. muito bem construído o site, traz informações bastante interessantes, principalmente prá quem procura por ascendentes.

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  2. muito bem construído o site, traz informações bastante interessantes, principalmente prá quem procura por ascendentes.

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  3. Olá Lucia, tudo bem? Existe transporte público para chegarmos a Porto Viro partindo ou de Bolonha ou de Veneza? Obrigada

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Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.