08 dezembro 2011

Crotone, a cidade de Pitágoras



Crotone, ao sul da Itália na Calábria, é uma cidade litorânea com lindas praias banhadas pelo mar Jônico. No passado foi uma cidade-estado da Magna Grécia, o que fêz prosperar inúmeras histórias, mitos e lendas.

O Centro histórico, com um labirinto de ruelas estreitas, constrasta com os modernos prédios nas grandes avenidas, fazendo de Crotone uma mistura de história, arqueologia e belas paisagens naturais.








A cidade foi fundada no séulo 8 a.C. por um aqueu corcunda chamado Myskellos. Ele teve um sonho em que o heroi grego Héracles ou Hércules o mandava fundar uma cidade e, em homenagem a Kroton, um morador da cidade que havia hospedado o heroi grego, Myskellos deu seu nome à cidade: Crotone.



Santuário de Santa Maria di Capo Colonna


Catedral de Santa Maria Assunta


Igreja de San Giuseppe


Igrejas: Há várias igrejas mas o santuário de Santa Maria di Capo Colonna é o mais antigo de Crotone. Erguido sobre o promontório, está localizado ao lado da área arqueológica. Construído no ano 1000, manuscritos dizem que naquele lugar tinha existido uma capela desde o ano 500 onde se venerava o quadro sagrado com a imagem de Nossa Senhora.
Durante uma invasão, quando os turcos muçulmanos lançaram o quadro ao mar, a tela retornou suavemente para a costa onde foi encontrada por um pescador que a guardou por muitos anos e somente revelou seu segredo em seu leito de morte.

A Catedral de Santa Maria Assunta, construída no século 9, guarda em seu interior o quadro bizantino da Madonna de Capo Colonna junto com o Menino Jesus, que segundo a tradição veio da Terra Santa nos primeiros anos da era cristã.




Castelo Carlo V: Por ser uma cidade litorânea, era preciso se defender das invasões inimigas e por isso no século 16 Carlo V mandou construir o grande Castelo Carlo V. Com suas grandes muralhas, que ocupam uma extensa área, as torres cilindricas e várias vigias tem uma exuberante visão do porto e do mar. Atualmente o castelo pertence ao Estado e funciona como museu.



Milo de Crotone: No passado Crotone era famosa pelo seu clima, pela beleza de suas mulheres e pela força física de seus homens. Um atleta grego, conhecido como Milo de Crotone, nasceu nessa cidade e competiu nos mais importantes Festivais de Atletismo da antiga Grécia, tendo sido campeão por várias vezes consecutivas. 

Como outros atletas bem-sucedidos da Grécia antiga, Milo era objeto de lendas fantásticas sobre sua força e poder. Segundo a lenda, ele treinava carregando um bezerro amarrado sobre seus ombros. À medida que passava o tempo o bezerro crescia, o que levou Milo a desenvolver sua força para carregar aquele bezerro cada vez mais pesado.

E assim, algum tempo depois, Milo era visto andando pela cidade carregando um touro nas costas. A lendária força de Milo e sua morte tornaram-se temas da arte e da literatura. Milo tinha força, mas não tinha nobreza e humildade.

Para provar sua força, ele inseriu suas mãos em uma fenda para rasgar uma árvore. Porém a cunha escapou e a árvore fechou sobre suas mãos prendendo-o. Incapaz de se libertar, o lutador foi devorado por feras. Frequentemente, seu exemplo é usado para ilustrar a efemeridade da vida e da glória. 



Vinhos de Crotone: O famoso vinho DOC Cirò provém de Cirò Marina. Com sabor característico e acentuado, o Cirò Rosso é o vinho mais antigo e mais importante da Calábria, pertencendo à casta dos vinhos nobres da história do vinho italiano. Diz um slogan que todo o sabor dos vinhos da Calábria cabe em Crotone.

Cirotano foi o primeiro vinho a ser produzido na área costeira e sua história se perde em muitos mitos e lendas. Desde a antiguidade e até os dias atuais, o vinho Cirò é famoso pelas suas virtudes terapêuticas e muitos médicos o indicavam para quem quisesse recuperar suas energias e vitalidade, afirmando que se tratava de um tônico revigorante e rejuvenescedor, graças ao uso de antigos métodos de vinificação.

Quando os primeiros gregos desembarcaram na costa da Calábria ficaram tão impressionados com a fertilidade da terra, rica de vinhedos, que a chamaram de Enotria, a terra do vinho. O vinho ali produzido era tão valorizado pelos antigos gregos que, segundo as tabelas da antiga cidade de Heraclea, um lote de vinhedo valia seis vezes mais do que um lote de cereais.

Os agricultores helênicos trouxeram consigo novas técnicas de vinificação e implantaram novos vinhedos. É muito provável que alguns vinhedos presentes na atualidade sejam de origem grega. Em Crotone se produzia o Krimisa, um vinho ancestral do Cirò, numa região chamada Krimisa, que tinha um imponente templo dedicado a Bacco.

Hoje, esse é o local de Cirò Marina. A produção de vinho era tão importante na região que, para facilitar o seu transporte e o carregamento nas embarcações no porto, foi construída uma tubulação feita de terracotta que levava o vinho do alto das colinas até o porto. E por ser tão valioso, os vencedores nos Jogos Olimpicos recebiam como prêmio o valioso vinho.








Castelo Le Castella: Com belas e extensas praias e confortáveis resorts, percorrer ao longo da costa do Mar Jônico em Crotone é descobrir belezas naturais e também muitas histórias. Nas praias perto de Capo Rizzuto há um antigo castelo chamado Le Castella, que foi construído em uma ilha onde se chega por um estreito caminho. 




Pitágoras de Samo: Capo Colonna é uma parte da cidade com uma série de vestígios arqueológicos que testemunharam o período Magna Grécia, possivelmente o tempo mais frutífero que Crotone já conheceu. Foi durante esse tempo que Pitágoras de Samo escolheu a cidade como o local para sua escola.

Das muitas lendas de Crotone, as mais intrigantes são as que envolve Pitágoras, o famoso matemático de Samos que viveu entre cerca de 571 a.C. e 570 a.C. Durante seus estudos, Pitágoras percorreu por 30 anos pelo Egito, Babilônia, Síria, Fenícia e talvez a Índia e a Pérsia, onde acumulou ecléticos conhecimentos de astronomia, matemática, ciência, filosofia, misticismo e religião.

Ele foi contemporâneo de Tales de Mileto, Buda, Confúcio e Lao-Tsé. Quando retornou à sua cidade natal, indispondo-se com o tirano Polícrates , emigrou para o sul da Itália em Crotone, que era de dominação grega. Historicamente Pitágoras foi uma figura imprecisa, sendo difícil separar sua história das lendas a seu respeito. Nada deixou escrito e tudo o que se sabe dele deve-se à tradição oral.

Dizia-se que o mestre Pitágoras vivia repetindo aos seus discípulos: " Todas as coisas se assemelham aos números". Ele teria chegado à concepção de que todas as coisas são números e o processo de libertação da alma seria resultante de um esforço basicamente intelectual.
A purificação resultaria de um trabalho intelectual, que descobre a estrutura numérica das coisas, tornando a alma como uma unidade harmônica. Nesse caso os números não seriam símbolos, mas valores de grandezas, ou seja, o mundo não seria composto dos números 0, 1, 2, etc, mas dos valores que eles exprimem. Assim, uma coisa manifestaria externamente a estrutura numérica, sendo esta coisa o que é, por causa deste valor. 





Em Crotone Pitágoras fundou a Escola Pitagórica, que pode ser considerada a Primeira Universidade do Mundo. A Escola Pitagórica e as suas atividades foram envoltas por um véu de lendas, uma entidade parcialmente secreta que tinha centenas de alunos atraídos pelos ideais de respeito e justiça em harmonia com a natureza, que compunham uma irmandade religiosa e intelectual.

Pitágoras ensinava sobre a reencarnação, o aperfeiçoamento do homem, astronomia, as virtudes e a obrigação com os deveres sociais. O mestre cobrava uma disciplina austera, acreditando que o mal que atrasa a evolução do indivíduo tem origem nos abusos, nos vícios e, por consequência, no descontrole emocional.


Segundo o pensamento pitagórico, a disciplina vegetariana, a libertação dos desejos grosseiros, da ganância, a capacidade de perdoar as ofensas, o controle do egoísmo e do medo, fortaleceriam o caráter, mudariam a visão curta da vingança para aquela mais longa do perdão que encerra a dolorosa corrente do "olho por olho".


Para Pitágoras, cada homem é em si mesmo, em absoluto, o caminho, a verdade, a vida, uma antecipação do reino de Deus que está em cada um de nós e a solução está em nós, por isso não devemos cobrá-la dos outros, afinal, não é do sofrimento proporcionado aos semelhantes que a humanidade progride. Feliz é quem se satisfaz controlando vaidades e ambições mundanas.
Feliz é quem pensa na eternidade que o espera e traz para si a felicidade e o êxtase da presença de Deus em seu íntimo.





Segundo o pitagorismo, o número é a essência e princípio fundamental que forma todas as coisas. Os pitagóricos não distinguiam em forma, lei e substância, considerando o número o elo entre estes elementos. Para os pitagóricos, existiam quatro elementos: terra, água, ar e fogo e por isso, eles investigaram as relações matemáticas e descobriram vários fundamentos da física e da matemática.

Além de grandes místicos, os pitagóricos eram grandes matemáticos que descobriram propriedades interessantes e curiosas sobre os números, tal como o número perfeito, que é a soma dos seus fatores multiplicativos igual ao próprio número: 28 = 1+2+4+7+14.

Assim como outros filósofos gregos pré-socráticos, Pitágoras também descreveu o poder do som e seus efeitos sobre a psique humana. Essa experiência musicoterápica possivelmente foi utilizada mais tarde por Aristóteles como base teórica para sua definição de música, que, segundo ele, era uma arte medicinal.





O símbolo utilizado pela escola era o pentagrama que, conforme descobriu Pitágoras, possui algumas propriedades interessantes. Um pentagrama é obtido traçando-se as diagonais de um pentágono regular. Pelas intersecções dos segmentos desta diagonal é obtido um novo pentágono regular, que é proporcional ao original exatamente pela razão áurea.


O pentagrama é também conhecido como o símbolo do infinito, pois é possível fazer outro pentagrama menor dentro do pentagrama maior e assim sucessivamente. Possui simbologia múltipla, sempre fundamentada no número cinco, que expressa a união dos desiguais. Representa uma união fecunda, o casamento, a realização, unindo o masculino, o 3 e o feminino, o 2, simbolizando ainda, dessa forma, o andrógino.





Pitágoras foi o primeiro filósofo a criar uma definição que quantificava o objetivo final do Direito: a Justiça. Ele definiu que um ato justo seria a chamada Justiça Aritmética, na qual cada indivíduo deveria receber uma punição ou ganho quantitativamente igual ao ato cometido.

Tal argumento foi refutado por Aristóteles, pois ele acreditava em uma justiça geométrica, na qual cada indivíduo receberia uma punição ou ganho qualitativamente ou proporcionalmente ao ato cometido, ou seja, ser desigual para com os desiguais a fim de que estes sejam igualados com o resto da sociedade.


Pitágoras ficou conhecido também como o filósofo feminista, visto que na escola havia muitas mulheres discípulas e mestres, tais como Theano, que se tornou sua mulher. Mas a comunidade pitagórica de Crotone, inofensiva por natureza e voltada para a busca da paz, durou pouco.





Sua fama despertou o interesse da juventude, de pessoas mais sensíveis, mas também despertou o temor dos déspotas que governavam com mão de ferro os territórios vizinhos. A comunidade foi cercada, incendiada e os discípulos morreram levando consigo a sua filosofia e o misticismo dos números.
Pitágoras conseguiu escapar e peregrinou pela Itália por mais duas décadas transmitindo seus ensinamentos.

Ao ser banido, Pitágoras se refugiou em Metaponto onde morreu em 490 a.C. com quase 100 anos, uma idade fantástica para aquela época. Seus longos anos de vida diziam ser fruto de sua dieta, meditação e autocontrole. Apesar de ser iniciador da filosofia ocidental, passou à história como grande matemático, pois ensinava que o universo se sustenta no equilíbrio dos números e apenas esse lado do seu pensamento não incomodou ninguém.

O restante de sua obra foi sistematicamente destruído como ameaça aos detentores do poder e da riqueza material. E não podia ser por menos, Pitágoras sustentava que "O Estado existe para o benefício do governado", uma verdadeira heresia para a maioria dos governantes, que agem até hoje usando o Estado em benefício próprio...




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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.