15 dezembro 2011

De Caserta veio uma Imperatriz para o Brasil



Numa planície da região da Câmpania está Caserta, uma cidade que tem como ponto principal o Palácio Real de Caserta. Foi encomendado pelo Rei Carlos VII de Nápoles para servir de centro administrativo do Reino de Nápoles e simbolizar o poder real.


 
 
 
O ambicioso projeto do rei não se limitava apenas à construção do palácio, mas visava criar uma nova cidade que tivesse todos os progressos urbanísticos da época e fosse a capital mais avançada de toda a Europa.

Construído entre os anos de 1752 a 1845, o rei escolheu o local por causa da beleza da paisagem e porque considerava uma área menos vulnerável a ataques inimigos. A majestosa praça em frente ao palácio está entre as maiores da Europa, sendo constituída de uma imensa área verde.

Antigamente era cortada por estradas abertas ao tráfego de veículos, mas um longo trabalho tornou-a de acordo com o antigo projeto. O novo formato feito com arbusto e árvores tornou a praça um lugar perfeito para passeios.



 
 
 
Naquela época o Reino de Nápoles pertencia à Coroa Espanhola. Entusiasmado com o projeto, o Rei Carlos VII lançou a pedra fundamental no dia do seu aniversário em 1752. Projetado pelo arquiteto Luigi Vanvitelli com um grande parque e jardins, a obra começou rapidamente mas o rei jamais viu seu projeto finalizado.
 
Com a morte de seu irmão, o rei teve de retornar e ocupar o trono espanhol. Com sua volta à Espanha, as obras ficaram paralisadas. Sucedido por seu filho Fernando IV de Bourbon que tinha apenas 8 anos de idade, seus tutores não tiveram muito interesse na obra.
 
Além disso, em 1773 o arquiteto Luigi Vanvitelli faleceu quando a obra ainda estava longe de ser concluída. Carlo Vanvitelli que havia sido treinado por seu pai junto com outros arquitetos, continuou a grandiosa obra que seria concretizada no século seguinte.
 
 
 
 
 
Parte da obra só foi finalizada quando o Vesúvio entrou em erupção e o rei teve de abandonar sua residência para mudar-se para Caserta. Quando Napoleão conquistou Napoles em 1806, a família real fugiu para a Sicilia. O palácio entrou em decadência até ser reconquistado com a queda de Napoleão.
 
O palácio foi concluído em 1847, quase 100 anos depois do início das obras, mas nunca teve a forma de acordo com o que tinha sido planejado apesar de ter sido empregado luxuosos materiais em sua construção.



 
 
 
 
Com 1200 salas e mais de 2000 janelas, a maioria do espaço é ocupada por grandes salões, com paredes cobertas por paineis decorativos e molduras banhadas em ouro, além de capela, teatro e biblioteca. Há várias rotas para visitar o palácio, que tem um formato retangular com pátios internos somando 47.000 metros quadrados em cinco andares.
 
A grande escadaria leva aos aposentos reais, onde há quartos e salas que eram destinadas à família real e foram feitos em diversas épocas. Isso pode ser notado na diferença de estilo na decoração que seguiu a tendência do momento. 
 
 
 
 
 
O Salão do trono reflete a riqueza dos Bourbon. Há também o Salão da Primavera, Salão do Inverno, Salão do Verão e o Salão do Outono que tem as paredes cobertas de seda, teto pintado com afrescos e candelabro de Murano.
 



 
Os quartos da rainha decorado com estilo rorocó diferencia dos aposentos destinados ao rei que tinha móveis maior a rigor. Os retratos reais visavam ressaltar cenas da vida na corte mas também as virtudes dos reis. Também pode-se visitar os sotãos e partes do palácio que acessam o pátio.
 
 
 
 
 
 
Os três salões da Bibioteca Palatine tem estilo neoclássico visível nas estantes superiores, nos painéis de madeira e nas decorações exibidas nas prateleiras. A partir da terceira biblioteca há uma sala com algumas soluções arquitetônicas da época que visava melhorar a acústica, talvez porque fosse uma sala para ouvir música.
 
O teatro da corte está na parte ocidental do palácio e foi inaugurado somente em 1769. Apesar de ter sido previsto no projeto, sua criação é posterior à construção do palácio. Localizado no interior do palácio, o arquiteto previu uma entrada exclusiva para o rei adentrar ao camarote real. Com uma decoração deslumbrante, o teatro é uma miniatura do Grande Teatro San Carlo de Nápoles.
 

 

 
 

A Capela Palatina no andar superior tem um amplo salão com piso de pilares de mármore. Em 1943 a capela sofreu alguns danos durante a guerra, sendo que algumas obras artísticas foram perdidas. A única tela sobrevivente é da Imaculada Conceição no altar mor. Segunda consta a capela foi inaugurada numa noite de natal com a missa à meia-noite.
 
Alias o rei Carlos VII tinha grande paixão pelo natal e pelos presépios, quando envolvia toda a sua família e a corte na preparação das imagens na época do natal. No palácio real ainda existem as peças montadas num stand de vidro.
 

 
 
 
 
O parque do Reggia di Caserta é um dos jardins reais mais belos da Europa, tendo sido inspirado nos jardins das grandes residências europeias da época. O plantio das primeiras mudas de plantas teve início em 1753, mas ao ser concluído foi simplificado pelo filho de Vanvitelli sendo apenas parte do que foi projetado por seu pai.
 
A maioria dos quartos tinha vista para as cascata e para as fontes, cada uma dedicada a um personagem da mitologia: Fonte dos delfins, Fonte de Vênus e Adonis, Fonte de Eolo, Fonte de Ceres e Fonte de Atena e Acteon.


 

 
 
Abaixo da cachoeira do Monte Briano, duas grandes estátuas de mármore representam o momento em que Actéon foi transformado em um veado quando foi devorado por seus próprios cães. Ao lado da Fonte Diana a Rainha Maria Carolina encomendou um jardim em estilo inglês com estufas, tornando-se um verdadeiro jardim botânico.  



 


A espetacular obra de engenharia hidráulica foi talvez uma das mais importantes realizadas pelos Bourbons. Uma gruta artificial construída com grandes blocos marca o topo da cachoeira, de onde pode-se apreciar uma esplêndida visão panorâmica de todo o parque e do castelo. 
 
 
 
 
O Aqueduto projetado também por Luigi Vanvitelli fazia chegar água até as fontes do palácio. Em um caminho de 3 km de comprimento, aproveitando a inclinação do terreno, foram criadas sucessivas cascatas e fontes.

Originado a partir da necessidade de suprir a grande cidade de água potável e abastecer as maravilhosas fontes reais, os 38 quilômetros de extensão foram realizados a partir de 1753 e concluídos em 1770.

 
 
 
 
Em 1860 todo o reino foi incorporado no Reino de Itália e o palácio foi utilizado ocasionalmente por alguns membros da Casa de Saboia. Vitor Emanuele II da família Saboia doou o palácio ao povo italiano.

Durante a 2ª Guerra Mundial, o palácio serviu como quartel general dos aliados e sofreu grandes danos. Restaurado após a guerra, uma parte do palácio tornou-se museu e a outra parte foi convertida em Escola Superior de Turismo. Em 1997 o Reggia di Caserta foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.




De Caserta veio uma Imperatriz para o Brasil. Descendente do Rei Carlos VII, Teresa Cristina de Bourbon casou-se por procuração em Nápoles com o Imperador D. Pedro II em 1843. Mas quando chegou ao Brasil, D. Pedro que não a conhecia ficou decepcionado e teria cogitado em pedir anulação do casamento, pois ele a achou feia além de que ela era baixinha e claudicante.

Grande estudiosa de arqueologia, se tornou claudicante devido a uma queda enquanto percorria as ruínas de Pompeia e Herculano.  Com a sua boa cultura, refinada educação e dotes artísticos, a princesa napolitana conquistou o Imperador e o Brasil, tendo sido considerada "a mãe dos brasileiros".

Várias cidades do Brasil, como Teresina no Piauí, Teresópolis no Rio de Janeiro, Imperatriz no Maranhão e outras tem seus nomes em homenagem à Imperatriz Teresa Cristina. Dotada de raro senso de cordialidade, discreta, caridosa e inteligente, trouxe para o Brasil médicos, professores, botânicos e muitos estudiosos enriquecendo a vida cultural e científica brasileira.
 
Sua filha, Princesa Isabel, foi quem assinou a libertação dos escravos no Brasil.  Sendo napolitana, acredita-se que tenha sido responsável pela introdução das massas no cardápio da família imperial. Muito provavelmente, o primeiro prato de macarrão saboreado no Brasil tenha sido preparado pela própria imperatriz.

 
Caserta centro


Caserta: Além do palácio Caserta possui outros atrativos espalhados pela cidade. Embora detenha uma antiga e longa história, grande parte da cidade possui prédios modernos com balcões floridos que trazem elegância e sofisticação à cidade. Em largas e amplas avenidas encontra-se uma diversidade de lojas de grife, embora haja diversas lojas muito bacanas em ruas e becos estreitos que possuem um clima medieval.


Piazza Dante
Corso Trieste
 
Piazza Dante: Na Piazza Dante, que por muito tempo no passado foi o ponto de encontro social da cidade, os prédios com pórticos respeitam o formato redondo da praça. No passado era chamada de Quattro Canti devido aos quatro prédios que a circundam.

Da praça partem as principais ruas da cidade, como a Via Mazzini com seu prestigiado comércio e órgãos públicos, o Corso Trieste com seus belos palácios e que termina no Memorial dedicados aos mortos na guerra e a Via Cesare Battisti que dá acesso à movimentada Via Roma.


Piazza Vanvitelli
Palazzo Vecchio
 
Piazza Vanvitelli: Nas proximidades da Piazza Dante está a antiga casa onde residiu por mais de 20 anos o arquiteto Luigi Vanvitelli. É chamado de Palazzo delle Quattro colonne devido ao formato de sua construção com quatro colunas feita em 1700. Uma placa na entrada lembra o ilustre morador do imóvel.
 
Ao longo da Via Mazzini está a Câmara Municipal, o Tribunal dos Magistrados e o Teatro Comunale, chegando até a Piazza Vanvitelli que é coração da cidade. Marcada pelo monumento dedicado ao arquiteto Luigi Vanvitelli, a estátua tem a mão estendida como que se indicasse sua magnifica obra.
 
A praça Vanvitelli tem sua história ligada ao Palazzo Vecchio, que foi a primeira residência dos antigos governantes de Caserta, como os Duques Della Ratta, Duques Acquaviva até chegar à família dos Bourbons. Foi decorado para o casamento de Anna Acquaviva, a última duquesa da família que era uma das sete nobres famílias do reino de Nápoles.
 
 
Palazzo de Caserta
Palazzo Commestibili

Arquitetura: No entorno estão vários prédios públicos, lojas, cafés e belos palácios antigos, como o Palazzo Leonetti de 1796 que é a sede do Banco de Roma. E por toda a cidade ainda encontra-se belos prédios que caracterizam os diversos períodos de construção da cidade, como o Palazzo Paternò de 1775 na Via San Carlo onde morou o Marquês Lorenzo Paternò, o Palazzo dei Commestibili, Palazzo Grove e o prédio da Câmara de Comércio que se destaca na Via Roma.
 
O prédio do Banco da Itália funciona no antigo Palazzo dei Granili, que em 1870 tinha grande destaque na cidade devido ao seu relógio. Na Piazza Matteotti, que é uma das mais antigas da cidade e mais conhecida como Piazza del Mercato, há majestosos prédios históricos como a Casa del Fascio onde durante algum tempo foi a sede do regime facista. Na mesma praça há um prédio com uma longa varanda em estilo neoclássico. Todos os dias o mercado está aberto para venda de alimentos, vestuário e utensílios domésticos.
 
 
Igreja San Michele Arcangelo
 
Igrejas: A Piazza Duomo é um dos principais pontos do centro histórico, onde encontra-se a Catedral dedicada a San Michele Arcangelo construída entre 1822/1842 sobre uma antiga igreja. Junto da catedral está o Seminário Sacellum e a antiga Capela de San Giovanni Battista, que originalmente remonta a 1310 e tem um belissimo altar de mármore de Carrara.
 
Além da Catedral existem inúmeras igrejas e seminários espalhados pela cidade, sendo algumas muito antigas assim como algumas recentes e em formatos modernos. Uma das mais antigas é a Igreja San Agostino de 1441, situada próximo à Piazza Dante e que já foi um monastério. Outras também antigas é Igreja de Montevergine de 1636 e a Igreja de Santo Antonio.
 
Ao lado do Palácio Real está a Igreja de Sant'Elena que era a preferida do arquiteto Vanvitelli. Conta-se que ele construiu uma pequena varanda em seu palácio para que pudesse acompanhar a missa mesmo estando em seu apartamento. Ao lado existe uma Igreja circular dedicada a Nossa Senhora de Loreto conhecida como La Rotonda, que é um memorial aos mortos da Aeronautica. Na Igreja e o mosteiro de San Francesco di Paola de 1606 estão os restos mortais do arquiteto Luigi Vanvitelli. 
 
O Santuário de Sant'Anna foi criado originalmente em 1600, mas ao ser destruída durante a guerra passou por uma grande restauração adquirindo estilo moderno. Sant'Anna junto com San Sebastiano são considerados os padroeiros da cidade, sendo a Festa de Sant'Anna celebrada em julho.
 
 
Palazzo del Belvedere

Palazzo del Belvedere
Palazzo del Belvedere

San Leucio: Outro local real de Caserta está presente no Palácio do Belvedere em San Leucio. Em certa época o Rei Ferdinando IV sentindo entediado com a vida no Palácio Real resolveu escolher uma área nas montanhas onde pudesse construir um retiro para descansar. Surgia assim o Palácio do Belvedere que posteriormente teve o acréscimo de um pavilhão de caça, sendo chamada primeiramente de Fernandinópolis.
 
Entretanto um incidente mudaria o destino do lugar. Em 17 de Dezembro de 1778 seu filho mais velho e herdeiro do trono faleceu devido a um acidente. Abalado com o acontecimento, o rei decidiu construir um hospital para os pobres da província. E para dar-lhes uma ocupação mandou construir uma fábrica têxtil de sedas, com um complexo sistema de rodas e carreteis que produzia tecidos para as nobres famílias.
 
 


 

 
Museu da Seda: Para ensinar o processo o rei mandou vir de longe os melhores especialistas na arte da seda, além de incentivar o cultivo de amoreiras e bichos da seda. A fabricação envolveu toda a população e se tornou uma arte em San Leucio, nascendo assim a tradição em torno da fábrica de seda. Os tecidos produzidos foram usados na decoração do Palácio Real.
 
No Museu das sedas de San Leucio estão os antigos instrumentos para fabricação da seda. A herança do rei ainda sobrevive  nas empresas locais de seda e têxtil, que atendem a uma elite internacional como o Palácio de Buckingham, a Casa Branca, Vaticano e os Palácios Quirinale e Chigi. 
 
A cada ano os moradores da comunidade leuciana organizam um desfile para relembrar sua história. Entre danças e  canções, o narrador se desdobra ao longo do caminho terminando na Praça do Belvedere. Assim inicia a Serenata a Palummela, um diálogo cantado entre dois enamorados. A festa é motivo de orgulho de pertencer a uma vila cheia de histórias. 
 
 
Casertavecchia
 
Casertavecchia: A região de Caserta foi num passado bem distante um local onde viveram etruscos, Samnitas e dominado pelo Império Romano até o ano de 476. Mas após a queda do império e com a invasão de bárbaros as pessoas buscaram refúgio nas montanhas. Daí nasceu Casertavecchia, uma pequena aldeia nas imediações de Caserta que ainda mantém seu estilo medieval.
 
Situada no alto da colina, do alto tem-se uma ampla visão panorâmica das planícies. E a cidade é tão antiga que suas origens são incertas. Segundo um monge beneditino que escreveu sobre a aldeia no ano 861, a aldeia situava-se num local de difícil acesso entre as montanhas. Realmente ainda hoje há uma subida íngreme serve de acesso à cidade e marca os becos margeados por antigas casas de pedras onde o silêncio reina absoluto.
 
 
 
 
Grandes portas e arcos revelam um canto sossegado, onde moradores vivem felizes num ambiente marcado pela arquitetura árabe-normando, que sobreviveu de um tempo em que a cidade viveu seu esplendor sob o governo do Rei Ricardo I de Aversa entre 1100 e 1129.
 
Foi nessa época que surgiu a Catedral e depois a sua torre sineira que provavelmente serviu de alerta para acontecimentos importantes da cidade. Relíquias valiosas estão guardadas na cidade, tal como os restos mortais de santos e um vaso de alabastro, que acredita-se seja um daqueles em que Jesus transformou a água em vinho no casamento de Canaã.
 
 
Casertavecchia
 
Outro símbolo da aldeia é o antigo castelo com a sua grande torre circular com base de pedra da base, que tem 30 metros de altura por 19 metros de diâmetro. É uma das maiores torres da Europa sendo acessada a partir do castelo que foi construído para proteger a cidade. A cidade teve muito prestígio quando esteve sob o governo da família Acquaviva, que eram nobres e ricos senhores feudais.
 
Em 1656 uma epidemia se alastrou pelo reino de Nápoles, tendo dizimado a população de Caserta. A cidade, que foi alvo de disputas entre dinastias nobres, teve seu último conflito na batalha de Volturno em 1860 quando o exército dos Bourbons se rendeu a Giuseppe Garibaldi que lutava pela independência da Itália.
 
Uma caminhada em Casertavecchia é como um mergulho na história. Atualmente manifestações folclóricas, tais como o retorno dos pilotos na aldeia e Settembre al Borgo que ocorrem anualmente no verão, tem contribuído para manter viva a cidade, onde muitas pessoas costumam passar as noites de sábado logicamente saboreando as pizzas napoletanas...
 
 
 
 

 

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Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.