01 março 2012

Bomarzo tem um surpreendente Parque dos Monstros


Em um vale arborizado da região do Lázio situa-se Bomarzo, uma antiga cidade etrusca que cresceu em torno de dois palácios pertencentes à nobre família Orsini que durante séculos detinha grande influência junto aos romanos. Sendo uma das famílias mais influentes da época medieval, muitos membros da família foram papas, tais como o Papa Celestino III, Papa Nicolau III, Papa Bento XIII além de muitos que foram cardeais e importantes figuras políticas e religiosas.

Durante séculos a família Orsini dispôs de muito prestígio, utilizando-se disso para nomear seus próprios parentes a cargos políticos e eclesiásticos. Porém no século 16, enquanto a família Orsini tinha sua riqueza em declínio, a família Farnese consolidava sua riqueza e poder durante o pontificado do Papa Paulo III - Alessandro Farnese, que havia adquirido a maioria das cidades ao norte do Lázio.

O casamento entre Pier Francesco Orsini, conhecido como Vicino Orsini, e Giulia Farnese em 1544 foi providencial para as duas famílias. A família Orsini passou a compartilhar dos bens dos Farnese e os Farnese passaram a ter um status reconhecido pelos romanos.







O casal fixou sua residência em Bomarzo, mas Vicino Orsini via que seu parente, o cardeal Alessandro Farnese, estava construindo um enorme palácio em Caprarola com um magnífico jardim e ele sentiu que também devia demonstrar riqueza. Com um estilo de vida epicurista, ele cercou-se de letrados e artistas. Brasões de armas dos Orsini combinados com monogramas de Vicino Orsini passaram a decorar as paredes externas dos edifícios e ruas de Bomarzo, embora seus súditos vivessem em condições miseráveis.

As casas em Bomarzo tinham belas fachadas, porém no piso térreo haviam cavernas escavadas na rocha sendo que algumas escavações tinham sido túmulos etruscos; eram nesses buracos escuros que os súditos moravam. Mandou também construir uma igreja com uma elegante fachada renascentista decorada por um casal de ursos segurando uma rosa fazendo uma referência ao brasão dos Orsini.







No entanto, Giulia Farnese faleceu em 1564 e seu marido dedicou-lhe um jardim chamado de "Bosque Sagrado" com esculturas mitológicas, faces gigantescas, elefantes, tartarugas, leões, dragões e ursos.

Construído com imagens e idéias, o jardim e suas estátuas levam a uma viagem filosófica através de temas como amor, morte, memória e verdade. O jardim é dedicado não só ao amor divino mas alerta para a violência da paixão e a loucura da perda, talvez refletindo o estado de espírito de Vicino pela perda de sua esposa Giulia.







Em cada estátua há uma poesia medieval e em uma delas está escrito: " Quem não visitar este lugar com as sobrancelhas levantadas e os lábios apertados vai deixar de admirar as sete maravilhas do mundo ".

Retratado em ópera e filme, o corcundo duque de Bomarzo provavelmente queria surpreender seus convidados quando percebeu que seu jardim não poderia competir em tamanho e riqueza com os jardins de outras poderosas famílias italianas, assim escolheu reforçar a sua originalidade.





Ao contrário de outros jardins que indicam o significado de fontes e esculturas, a maioria das enormes e grotescas estátuas do jardim de Orsini não indica uma explicação convincente. O impacto desconcertante das estátuas aumenta ainda mais pelas frases escritas em vasos ou placas que, ao invés de explicar, busca confundir ainda mais.

O que pode ser dito sobre uma casa inclinada que serve como passagem da parte inferior ao superior do jardim? A inscrição não diz a finalidade dessa construção, talvez seja alusivo a um terremoto. E o que dizer das pernas das cadeiras que foram desigualmente serradas de modo que ninguém pode sentar-se sobre elas?

Ou a gigantesca máscara com uma enorme boca. A inscrição em ruínas ao redor dos lábios desta visão extraordinária e infernal foi interpretada como: " Abandone toda a razão quem entrar aqui ". Dentro da máscara há uma mesa de piquenique formada pela língua do inferno.







Por muito tempo o jardim esteve abandonado, porém os atuais proprietários fizeram uma restauração em 1970 para trazer de volta o antigo esplendor das esculturas, escolhendo nomear o jardim como Parque dos Monstros apenas para fazer o marketing.

Obscura e ambígua, cada leitura produz um conjunto de diferentes ideias que refletem a personalidade de seu criador. Alguns significados estão intrínsecos nas próprias estátuas e monumentos, outros fazem referência a poemas épicos e a maioria é tão enigmática cuja interpretação se perde na imaginação de quem as contempla...







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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.