16 agosto 2012

Stilo, uma jóia da Calábria


A costa do Mar Jônico na Calábria é marcada por numerosas aldeias empoleiradas nas montanhas com vista para o mar. Surgidas na parte mais elevada, os antigos construtores visavam sobretudo a proteção das cidades contra os ataques vindos do mar. Com seus becos e ruelas estreitas, emolduradas por antigas construções e portais na parte histórica das cidades, nesses centros urbanos o tempo parece não passar. 

Dessas aldeias Stilo tem destaque sendo considerada entre "As mais belas aldeias da Itália". Encravada nas encostas do Monte Consolino, Stilo tem uma longa história envolta em mistérios e lendas. É uma das mais antigas cidades da Itália e, de acordo com historiadores, quando os Aqueus fugiram da Guerra de Troia foram parar na Calábria onde teriam fundado uma colônia grega chamada Kaulon entre 1200-1300 a.C.

Com a destruição da cidade nos anos 270 a.C. os moradores sairam à procura de um novo lugar mais seguro para a reconstrução da cidade e encontraram a comunidade dos monges basilianos e eremitas que pregavam nas grutas do Monte Consolino. No tempo em que viveu São Basílio, os monges buscavam um estilo de vida na mais completa penitência e separados do mundo. Eram os Anacoretas que iam para lugares distantes e desertos, vivendo solitários em cavernas.

A Ordem Basiliana é considerada a mais antiga comunidade religiosa existente no mundo. A vivência e a prática da espiritualidade desta comunidade fundamenta-se no ensinamento e no projeto de vida cristã comunitária de São Basílio Magno, que viveu entre 330-379. Ele foi um dos padres gregos mais destacados da antiguidade cristã e um dos maiores doutores da igreja de toda a história. 




Reutilizando pedras das ruínas de Kaulon, da qual só restão as fundações no sítio arqueológico, os monges bizantinos construiram a La Cattolica, um templo bizantino estilo medieval do século 9 que é considerado monumento nacional. Construído junto às rochas, o interior do templo já foi completamente coberto com afrescos no século 11, restando apenas alguns vestígios descobertos em 1927. 

Existem algumas inscrições em árabe e estudiosos afirmam que poderia ter sido utilizado como um oratório muçulmano. Após a conquista dos normandos, foi um dos mais importantes mosteiros basilianos do sul da Itália, mantendo o seu esplendor até o século 15 com uma rica biblioteca e numerosos tesouros de arte. No século 17 o mosteiro foi atacado e os monges decidiram mudar levando consigo as relíquias de São Basílio. Atualmente é utilizada pela Igreja Ortodoxa da Romênia na Itália. 

Igreja San Giovanni Tirestis

Igreja San Nicola Tolentino
Igreja San Domenico

Igreja San Francesco


A Igreja de San Nicola da Tolentino também foi construída pelos monges e, apesar de suas atuais condições precárias, a pequena igreja ainda conserva a cúpula em estilo trullo. Da igreja há uma bela vista do mar e das colinas perto da igreja. Decorada com belos estuques, a Igreja de San Giovanni Therestys foi construída em 1625. Em seu interior estão os restos dos monges basílios que dedicaram a igreja para seu santo.

O Duomo de Stilo foi construído no século 14 sendo um dos mais antigos da região e a Igreja de San Francesco de 1450 ainda mantém sua torre com um grande sino. A Igreja do convento de San Domenico foi construída pelo Dominicanos nos anos 1600, tendo sido a casa do monge Tommaso Campanella durante a sua juventude. 



A Procissão do Pão Bento é uma das celebrações religiosas mais importantes de Stilo. Realizada no sábado santo que antecede a páscoa, a procissão de enterro do Cristo circula a cidade precedida dos irmãos da congregação que vestem uma túnica branca e uma coroa de espinhos na testa. A população leva nas mãos o "Gucciadate", um pão redondo bento ou numa cruz feita de bambus, que depois das cerimônias irá proteger os campos.


Um monumento na praça em frente à Igreja de San Francesco faz homenagem ao filósofo Giovanni Campanella que após ingressar no convento adotou o nome de Tommaso Campanella.  Nascido nas imediações de Stilo em 1568 era filho de um pobre sapateiro mas muito estudioso, tendo se tornado poeta, teólogo, professor, filósofo e astrólogo.

Influenciado pelas ideias de Hermes, o criador da alquimia, dos tratados de magia e astrologia, ele defendeu algumas teorias. Ao incitar o povo para as mudanças na Calábria, foi preso aos 31 anos sob acusação de heresia e conspiração. Embora jamais tenha assumido culpa nas acusações, foi condenado a 27 anos de prisão. Durante seu tempo na prisão escreveu inúmeros trabalhos literários que foram considerados suspeitos. Posto em liberdade e novamente preso e julgado no Santo Ofício em Roma, só foi libertado aos 66 anos.

Por temer as perseguições, ele fugiu para a França onde foi recebido por Luis XIII e pelo Cardeal Richelieu que mandava mais que o próprio rei. Nessa época Campanella conviveu por algum tempo com Jean Baptiste Morin, que era o conselheiro astrológico do cardeal e do rei.



Porta Stefanina
Porta Reale
Fonte Gebbia ou dos Golfinhos

No início da Idade Média Stilo foi cercada por muralhas e torres, tendo cinco portas de acesso: Porta Reale, Porta Terra, Porta Scanza Li Gutti, Porta Stefanina e Porta Cacari, das quais apenas três ainda permanecem. Porém as muralhas e outros artifícios de defesa não impediram que cidade fosse invadida e conquistada por vários povos. Depois dos bizantinos chegaram os normandos, suevos, angevins, aragoneses, espanhóis e os Bourbons.

Nesses séculos foram construídos palácios e monumentos, entre eles a Fonte dos Golfinhos ou Fonte Gebbia com esculturas de influência árabe. Dizem que era um local de banho artisticamente decorado onde existia uma pedra de granito formando um assento que servia para algum Califa sentar e discursar para os seus empregados. Era conhecida como "Pedra do Califa" mas nada resta dela. 



Por séculos Stilo manteve grande importância estratégica, por isso nos anos 1200 foi construído o Castelo Normanno no alto da colina onde fosse possível controlar toda a cidade e o vale até o Mar Jônico. Cercado por vários pontos de guarda e defesa espalhados ao longo da encosta, do castelo só restam ruínas. Do alto tem-se uma bela vista panorâmica.

O limite inferior das fortificações começava sobre a parte superior da Igreja Cattólica Bizantina. As prisões do castelo eram escavadas nas rochas sob o castelo onde só se entrava ou saia através de um guincho. Todas as torres tinham cortes nas paredes por onde eram jogadas pedras ou derramado óleo fervendo para se defenderem de invasores.

Umas das lendas que envolve o castelo é que na parte central do castelo havia uma capela mas não era permitida a entrada de mulheres. No entanto, numa certa época foram justamente as mulheres salvaram a cidade. Segundo a lenda na época das invasões sarracenas, por sugestão do patrono San Giorgio o povo apavorado se refugiou na montanha. Persistindo o cerco e faltando alimentos e água, o santo ordenou que todas as mulheres que estivessem amamentando crianças reunissem o leite materno em um recipiente.

Depois que se formou um grande queijo, eles fizeram-no rolar pelas encostas da montanha. Julgando que o povo tivesse tanta comida que estivesse jogando-a fora, os sarracenos reconheceram que não conseguiriam tomar a cidade pela fome e resolveram retirar-se da cidade. O ponto onde o queijo de leite materno caiu passou a ser chamado Vinciguerra, um nome que ainda hoje permanece.


 
 

Apesar do terremoto de 1783 que provocou graves danos à cidade, restam ainda belos palácios históricos. Imponentes mansões e prédios dominam o centro e as imediações de Stilo e alguns preservam afrescos e pinturas sobre tela e esculturas. 

Parte integrante da história de Stilo, Ferdinandea tem um passado glorioso. Em meio à densa floresta, no início de 1800 o rei Fernando de Bourbon II escolheu o local como sua residência de verão sendo depois ocupada por importantes figuras. O vasto complexo de Bourbon foi concebido com um lindo jardim, lago, capela e um grande acervo de obras de arte.


Em memória ao seu glorioso passado, no início de agosto Stilo adquire ares medievais durante o famoso Palio de Ribusa, uma das bonitas e tradicionais manifestações culturais da Calábria. Com inúmeros espetáculos, desfiles em trajes medievais, jogos, torneios e performances dos Sbandieratori, a origem do Palio remonta às feiras que eram organizadas no início da primavera durante a Idade Média.

Durante o Palio o entorno da encantadora cidade velha é iluminado por tochas. Nas praças e ruas há peças de teatro, espetáculos de música e exposições, malabaristas, acrobatas, trovadores, comediantes, bruxas, atiradores com besta e arco, além da simulação de lutas e duelos que relembram as vicissitudes da nobreza de Stilo e os antigos torneios.  

As ruas do centro da cidade se tornam um mercado animado com seus laboratórios e oficinas onde só circula o Ribuso, uma moeda especialmente criada para o evento. As antigas aldeias do condado: Guardavalle, Pazzano, Stignano, Camini, Riace e Stilo se unem em provas de força e destreza e, no último dia, os representantes das seis cidades disputam o Palio, um estandarte artisticamente trabalhado. No clima medieval das tabernas antigas, deliciosos pratos típicos e bebidas fazem o deleite dos paladares. 

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.