14 setembro 2012

Sirmione, a joia de todas as penínsulas


Às margens do grande Lago de Garda na Lombardia, a pitoresca peninsula de Sirmione já era admirada por sua beleza desde os tempos antigos quando romanos ricos construíram suas moradias em sua extremidade. 

 

No extenso parque arqueológico situado na ponta da península estão as ruinas de uma vila romana. O principal marco histórico é a Grotte di Catullo onde acredita-se ter vivido em 55 a.C. o poeta Gaius Valerius Catullo, que dedicou seus poemas à cidade que ele chamou de  "A jóia de todas as peninsulas". 


Embora sejam chamadas de grutas, na verdade as ruínas são vestígios de construções que provavelmente tenha sido um balneário e não uma casa de campo. Em 1889 um mergulhador veneziano descobriu as águas sulfurosas que jorraram a 60ºC de uma perfuração feita no fundo argiloso do lago a 18 metros de profundidade. 

Dessas águas canalizadas até a cidade e com sua força curativa, criou-se as Termas de Sirmione que hoje é um oásis de beleza e saúde tornando Sirmione um destaque turístico do Lago de Garda. Isso propiciou o crescimento de uma destacada infra estrutura turística, com inúmeros e elegantes hoteis na cidade.

 

Sirmione surpreende a cada esquina. Com aparência medieval, ruelas estreitas e irregulares, é um paraíso para quem gosta de caminhar. Livre de transito, é possível desvendar cada lugar: ruas de casas coloridas, muitas flores e bons restaurantes com vista privilegiada para o Lago de Garda.

Por este lago já transitaram muitas pessoas famosas da história italiana, como Dante Alighieri que vinha ali para buscar inspiração, Carlos Magno e também alguns santos famosos, como Santo Antonio de Padova. 



Fora do centro da cidade encontram-se vilas milionárias com jardins preciosos e o Parque Maria Callas ao lado da mansão onde ela viveu por muito tempo. Internacionalmente famosa, a cantora de ópera se tornou notável na Itália e no mundo devido ao seu talento e também por sua tumultuada vida amorosa. 

A lenda que se formou em torno de Maria Callas envolvia não apenas sua conturbada vida pessoal, mas seu temperamento forte que a levou a indispor-se com maestros e colegas em torno de suas crenças estéticas, dando amplo material aos tablóides italianos.


Sendo um importante ponto estratégico, no passado Sirmione esteve continuamente mergulhada na turbulenta história do norte da Itália, seja pelas invasões após a queda do Império Romano, a expansão dos lombardos ou as lutas intrincadas entre os guelfos e os gibelinos na Idade Média.

Estas lutas legou a Sirmione seu grande marco, o Castelo Scaligero que liga a longa e estreita cidade ao continente através da ponte levadiça do castelo. Cercado de água por todos os lados, o castelo é uma fortaleza medieval construída no século 12 por Leonardino della Scala, também conhecido como Mastino I. É um dos castelos mais preservados da Itália.


A imponente fortificação caracteriza uma importante parte da história de Sirmione quando foi eliminada grande parte da população da cidade. No século 12 havia em Sirmione uma comunidade dos Cátaros, os adeptos do catarismo chamados pelos italianos de Panterini, que foi considerado um movimento herege pela Igreja Romana.

A Idade Média foi marcada pela violência e pela sede de poder da Igreja Católica; o Catarismo chocava frontalmente com o dogmatismo da Igreja. Essa comunidade, liderada por um bispo do clero, era contra a riqueza e a corrupção moral dos altos cargos eclesiásticos e pregavam ideias paralelas ao Gnosticismo do início da era cristã. Isso explica a simplicidade das Igrejas de Santa Maria Maggiore e de San Pietro in Mavino que foram construídas na Idade Média.


Os sacerdotes cátaros se denominavam bons cristãos e aparentemente levavam vidas simples e castas. Desprovidos de quaisquer posses materiais, buscavam afastar-se ao máximo do mundo e da matéria considerada motivo de corrupção. Eles afirmavam a existência de dois princípios opostos: o do Bem e o do Mal e consideravam que o mal estaria na matéria que aprisionava o bom espírito. 

 

Para os cátaros, o mundo e todas as criaturas estariam imersos em uma eterna guerra entre dois princípios irreconciliáveis: a luz do espírito e a escuridão da matéria que encheria a alma de desejos e a prenderia às coisas efêmeras do mundo. A salvação era a libertação da alma de seu invólucro satânico ou o corpo material impuro. Devido a essa concepção, os cátaros viam com bons olhos o suicídio por diferentes formas ou a morte por inanição. 

Mas ao mesmo tempo, os cátaros acreditavam que haviam partículas do reino de Deus, centelhas divinas adormecidas no ser humano e perdidas neste mundo, que precisavam ser despertadas e resgatadas. E, com o intuito de resgatar as centelhas divinas aprisionadas no mundo e nos homens, a doutrina cátara pregava o afastamento interior das paixões e dos aprisionamentos da vida terrena e passageira. Libertando-se da influência nefasta do mundo material, a alma estaria livre para seguir o caminho das estrelas, o caminho de retorno ao reino divino.


Os altos sacerdotes cátaros caminhavam entre o povo sempre em dupla, pregando a paz, o amor universal e o auxílio à população em suas necessidades. Para os cátaros, Deus estava acima das limitações do entendimento humano e acreditavam na doutrina da reencarnação. Para eles, o homem em sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar.

Não matavam qualquer espécie animal, jejuavam, praticavam a abstinência da carne e de tudo que proviesse da procriação, ou seja, dos derivados de animais como ovos, leite etc. Pregavam a abstinência sexual e não concebiam a ideia de inferno, pois no fim o Deus do Bem iria triunfar sobre o Deus do Mal e todos seriam salvos. 


Os cátaros reconheciam Deus como um ser não só de princípios masculinos mas igualmente de princípios femininos, tanto que pregadores das congregações cátaras eram de ambos os sexos. Sendo o ser humano a criação e filiação da divindade, as polaridades masculinas e femininas não seriam antagônicas, mas complementares, e portanto, igualmente importantes. Isso era inadmissível para a Igreja Católica que sempre se baseou no poder masculino sem a participação efetiva das mulheres. As mulheres só contavam como santas quando eram martirizadas; nenhuma mulher jamais esteve na liderança da Igreja Católica.  

Ligados às ideias de pureza, contam que os cátaros teriam atingido elevado grau de iluminação e possuíam o dom da palavra, pregando facilmente e transmitindo uma mensagem clara e sincera, capaz de atrair muitos fiéis. Denunciando ao público que a Igreja Católica tinha mais interesse no poder temporal do que o espiritual, a diminuição dos dízimos enviados a Roma despertou a fúria do Papa Inocêncio III que convocou o povo para abandonar o catarismo prometendo absolvição de todos os pecados, a remissão dos castigos e um lugar a salvo no céu.


Vendo fracassada essa tentativa de reconversão da população, já que os católicos e cátaros conviviam em harmonia, o Papa Inocêncio II convocou o exército das cruzadas contra os hereges. Para estimular o massacre dos cátaros, o santo Papa prometeu em compensação a partilha e doação das terras aos barões que as conquistassem, ou seja, se converteriam em senhores feudais. Com cerca de 20.000 cavaleiros, os cruzados massacraram o povo em Sirmione assim como em várias cidades da Europa.

Diz uma lenda que o Santo Graal, supostamente o cálice onde Jesus teria bebido vinho na Santa ceia, teria sido levado pelos cátaros durante o cerco a um castelo na Europa que era considerado o foco central do catarismo. Alguns cátaros teriam fugido durante a noite, descendo furtivamente a montanha onde o castelo estava encravado, levando consigo o precioso cálice para escondê-lo em um lugar seguro, onde estaria sido mantido oculto até os dias de hoje.


No entanto, o catarismo não foi erradicado até a instituição da Inquisição, época em que os Cátaros foram associados ao termo Catus que em latim significa gato. Eles foram injustamente acusados de adorar o diabo na forma de um gato além de outras infundadas acusações. Um dos movimentos que tinha algumas ligações com os cátaros era a Ordem dos Templários, que igualmente foram perseguidos pela inquisição.

Em Sirmione, assim como em vários outros locais, durante a captura os cátaros se misturaram com os católicos dentro das igrejas. As milícias de Verona capturaram em Sirmione várias pessoas consideradas ligadas ao catarismo, dentre elas centenas foram julgadas hereges e queimadas em praça pública.

A perseguição da Igreja Católica aos Cátaros se estendeu por toda a Europa matando homens, mulheres e crianças indiscriminadamente mesmo dentro das igrejas católicas. O representante papal ao ser questionado sobre como reconhecer os cátaros entre os católicos respondeu: " Matem a todos, Deus se encarregará dos seus..."


4 comentários:

  1. Maravilhoso! Adorei a matéria interessantíssima.

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  2. Que saudades de Sirmione ! Lugar inesquecível.

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  3. Que saudades de Sirmione ! Lugar inesquecível.

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  4. Amei Sirmione! Parabéns pela matéria.
    Apenas deixo um alerta sobre o estacionamento recomendado no site da prefeitura (oferece desconto para entrar nas termas, mas os carros são constantemente roubados enquanto os turistas estão na cidade murada e termas / tive tudo roubado e porta do carro destruida) mas vale muito a pena ir. Eu iria de novo (mas deixaria em algum estacionamento de hotel e não no recomendado pela comune)

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.