25 julho 2012

Triora, Paese della Stregoneria



Passear pelos vales e montanhas da Ligúria significa descobrir e compreender como é possível ao ser humano conviver ao lado da natureza vencendo constantes desafios. Indo da costa em direção ao interior, inúmeras aldeias em áreas naturais, com uma riqueza de espécies animais e vegetais, revelam o que há de mais puro da Ligúria. 




No alto das colinas surge a misteriosa cidade medieval de Triora, considerada entre as 100 mais belas cidadelas medievais da Itália e também prestigiada pelo Touring Club Italia Bandiere Arancioni como um dos melhores destinos turísticos. Muitos escritores se dedicaram a descrever a história e a cultura de Triora. 
 

 




De origem muito antiga, a cidade vive entre tradições e muitas lendas envolvendo magias e bruxarias, por isso a cidade é citada como "Paese della Stregoneria" ou Cidade da Bruxaria. Situada próxima à fronteira Itália/França, as tortuosas estradas que lhe dão acesso são perfumadas pelo cheiro das vinhas, hortas e árvores frutíferas. 



 

História da cidade: Os portais dos palácios refletem sinais do passado, brasões das famílias que aparecem nos relevos esculpidos em pedra negra ou ardósia e esculturas com símbolos místicos de cordeiros, monogramas e outras figuras. 
 
Ruas estreitas, escuras e tortuosas, que mais parecem um labirinto, conservam o calçamento original feito com pedras irregulares que em nada facilitam os passeios do pedestre. Passear de carro, nem pensar.

Os veículos devem permanecer estacionados fora do centro histórico. Casarões seculares e igrejas ocultam ruas desertas e becos úmidos com abóbodas enegrecidas que nunca viram os raios do sol. Um silêncio que assusta, mas que misteriosamente se torna instigante. 
 

 
 
 
Triora deriva nome deriva do latim "Tria Ora", as três bocas do monstruoso cão Cérberus citado na mitologia grega, que aparece no brasão de armas da cidade. Construída estrategicamente no alto de uma montanha em torno do ano 1000, foi habitada pelos ligúrios e no século 12 era uma importante aliada da República de Gênova. Depois de muitos anos de lealdade, o povo foi oprimido pelos impostos que eram pagos com trigo e vinhos.

Com a proclamação de independência da Ligúria, Triora chefiou a jurisdição até a queda de Napoleão em 1814. A cidade pertencia à França e a partir de 1860 foi transferida para o Reino da Itália. Durante a guerra de 1944, Triora sofreu pesados bombardeios dos nazistas que destruiram inteiramente alguns bairros que hoje encontram-se em reconstrução.


 

 


Igrejas: Entre as construções mais importantes estão a Igreja Collegiata di Nostra Signora Assunta com sua torre sineira construída sobre um templo pagão em 1770 e a Igreja rural de São Bernardino construída fora da cidade no século 15, declarada um monumento nacional. 
 


 


Há ainda a Igreja San Dalmazio do século 13, a Igreja de Santa Catarina de Alexandria do século 14, a Igreja de Santo Antonio Abade, Igreja de São João Batista e a Igreja de San Agostino de 1614 que contém belos afrescos.



Cidade das Bruxas: As ruínas das fortalezas, das antigas muralhas e das sete portas da cidade que eram chamadas de Castrum Vetus são plenas de mistérios. No cume acima da cidade, um pequeno forte chamado Locum Iustitiae hoje é usado como cemitério. Esse foi um local de defesa no século 12 e também onde eram executadas as pessoas condenadas à pena de morte. 

Triora evoca os ecos de uma época em que foram cometidos muitos crimes e atrocidades em nome de Deus, tendo sido realizado em Triora um dos últimos julgamentos da inquisição durante o período do renascimento. A fama da cidade foi criada pela memória do sofrimento a que foram submetidos muitos de seus habitantes, durante à caça às bruxas e aos considerados hereges.

 
 
Embora as bruxas sejam popularmente associadas à imagem de uma mulher velha, com cabelos desgranhados e voando sobre uma vassoura, na Idade Média não era assim. Qualquer mulher que utilizasse o conhecimento de cura pelas plantas, fizesse predições, apresentasse problemas do sistema nervoso, distúrbios psicológicos ou comportamento incomum para a época, por exemplo tomar banho todos os dias, era considerada ligada à bruxaria. 
 
Em 1587, quando as colheitas diminuiram e a fome tornou-se devastadora, muitos consideravam que fosse obra dos poderes do mal. Inúmeras denúncias chegaram ao prefeito da cidade que entregou a questão aos vigários inquisitores.  Muitas mulheres e meninas da Ca'Botina foram acusadas injustamente de canibalismo, sacrifício de bebês para o diabo, atos de feitiçaria e satanismo. Embora sem provas, algumas morreram durante a tortura, outras de fome, maus tratos e uma parte delas foram julgadas e queimadas vivas.

Considerado o local onde as bruxas dançavam em seus rituais santânicos, muitas lendas são mantidas sobre as ruínas da sinistra Ca'Botina abandonada, uma área pobre onde viviam muitas mulheres em precárias condições. Essa diferença social e a ignorância dos que viviam amedrontados por centenas de anos, somados ao fanatismo religioso, deu vazão à tortura e condenação à fogueira das infelizes criaturas.
 


 





Lojas de artesanato: A lenda das bruxas é alimentada pelos moradores que resistem às sugestões de modernização. A bruxaria incentiva o turismo e faz a fortuna da cidade que atrai muitos turistas e estudiosos interessados no sobrenatural e no desconhecido que estão presentes nas lendas e mistérios que envolvem a cidade. Muitas lojinhas vendem artigos artesanais relacionados às bruxas. 

O Halloween de Triora realizado em outubro é um dos eventos mais charmosos e típicos da Itália, em um cenário original de arcadas sombrias e ruelas escuras. Ao longo dos anos, Triora conseguiu transformar essa predisposição natural em um evento atraente e único. A assustadora celebração inclui espetáculos, música, tradição e magia que se repete no Festival de Verão da Bruxaria. 
 





Museo Regionale Etnográfico e della Stregoneria: Esse é o lugar que reconta toda a história da cidade, suas tradições e cultura. Numa seção do museu há salas dedicadas à etnografia, cada uma representando um ciclo de vida diária, com exposição de antigas ferramentas antigas, utensílios de cozinha, forno antigo usado para assar o pães e outros. No porão é reproduzido o cenário das prisões e tórturas crueis, além de antigos documentos preservados.


 
 

Pane di Triora: Triora também é sinônimo de gastronomia de alta qualidade, uma culinária rica e diversificada. Uma das especialidades de excelência local é o Pão de Triora que guarda seu segredo através dos séculos. Produzido com farinha integral é facilmente reconhecível pela sua forma redonda e achatada, com miolo de cor escura e aroma  inconfundível.

Na antiguidade os pastores passavam um longo tempo nas montanhas acompanhando os rebanhos e o Pão de Triora era um de seus alimentos, pois permaneciam inalterados e não endureciam mesmo durante vários dias. Essa é uma das principais características desse pão: permanece macio e fresco por longo tempo.



Sabores de Triora: Slow Food! Triora tem especialidades únicas que devem ser degustadas calmamente com o prazer da boa mesa. Uma das especialidades de Triora é a carne de javali preparada em receitas tradicionais, acompanhada de polenta além de várias opções de boas massas.

Na região há uma grande quantidade de Lumaca (escargot ou caracóis) que são servidos nos bons restaurantes locais. A escolha do vinho se perde em numerosas opções, entre elas alguns vinhos da região que são produzidos em pequena escala, porém de alta qualidade.

No outono florescem os bosques de castanhas numa infinita quantidade, sendo colhidas menos de 10% delas. As maiores são aproveitadas em diversas e criativas combinações nas cozinhas ou distribuídas gratuitamente nos festivais.

Também no outono florescem os cogumelos, os famosos Funghi que fazem a alegria dos seus catadores. Mas é necessário saber distinguir os comestíveis dos venenosos: os mais bonitos e atraentes são justamente os letais.

 




Convivendo entre o sagrado e o profano, durante o ano são realizadas inúmeras festas religiosas, festivais e feiras temáticas em Triora e nas aldeias próximas. A noite do solstício de verão ou noite de São João, que é padroeiro da cidade, sempre foi uma noite cheia de magia assim como a Noite de Natal. Nas duas ocasiões as fogueiras queimam ao som de músicas folclóricas, com muitas comidas típicas, vinho e cervejas artesanais. 
 



 
 
Imediações de Triora: Num raio de 10 km há várias aldeias: Bregalla, Cetta, Creppo, Goina, Loreto, Realdo, Verdeggia e Monesi que são roteiros para quem gosta de descobrir lugares únicos. Antigos campos de lavanda, trilhas em vales e montanhas são o paraíso para os fanáticos do trekking e para aqueles que buscam uma visão interior mais profunda, dispersar o stress ou clarear as ideias.

As aldeias de Triora reúnem cabanas de pastores e camponeses, que lembram a época das tradições no campo. Realto, Verdeggia e Creppo despontam com suas construções ordenadas e alinhadas sobre impressionantes penhascos. Dali pode-se concluir que construir castelos no ar não é mera fantasia.


 



Loreto também está sobre um penhasco íngreme ligando-se a Cetta através de uma ponte de 119 metros de comprimento e a uma altura de 112 metros. Até a pouco tempo era o local de bungee jumping, mas devido aos acidentes e suicídios, os parapeitos foram limitados por grades. Alpinistas ousados tentam desfrutar da escalada de suas rochas. 

Durante a primavera e no verão, sobre duas rodas os ciclistas exploram os muitos caminhos nas montanhas. Durante o inverno, Monesi se torna movimentada com sua estância de esqui. No cume do Monte Sacarello, que é o mais alto da Ligúria, o Redentor é o símbolo de proteção dos Alpes marítimos.

 

2 comentários:

Agradeço por sua visita e seus comentários

Related Posts with Thumbnails

Seguidores

Related Posts with Thumbnails

Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.