14 janeiro 2013

San Leo, onde rondam fantasmas dos alquimistas



A cidade: San Leo é uma pequena comunidade a 20 km de San Marino, que na antiguidade era conhecida como Montefeltro. Situada numa região montanhosa entre as regiões de Marche e Emilia Romagna, de San Leo tem-se um magnífico panorama de toda região.  Apesar de ser uma das mais belas cidades medievais da Itália, é pouco conhecida como destino turístico.



 
 


Monumentos: A cidade parece não ter compromisso com o tempo e o cotidiano transcorre sem pressa. O centro da cidade é rodeado de belos palácios tendo em destaque uma fortaleza sobre uma rocha com encosta lisa.

Dante Alighieri se referiu a San Leo em sua obra "Purgatório da Divina Comédia". O Palazzo della Rovere foi a residência dos Condes de Montefeltro e o Palazzo Mediceo remodelado pela família Medici em 1517 hoje funciona como Museu de Arte Sacra.

No Palazzo dei Conti Nardini, localizado na praça principal, São Francisco de Assis foi recebido em 1213. Outros monumentos são o Chafariz de São Francisco na praça, a Torre do sino que é o monumento mais isolado e a Fonte de San Leo de águas cristalinas. 




 
 


Catedral de San Leo: No final do século 2 San Leone chegou na cidade para pregar o cristianismo e tornou-se o primeiro bispo, por isso seu nome foi dado à cidade a partir do ano 1000. Segundo a tradição, a atual da Catedral de San Leo estaria sobre um tempo dedicado a Júpiter Feretrius construído na época de domínio dos romanos.

A Igreja Paroquial é a construção mais antiga e considerada o coração da cidade medieval. Este seria o local para onde San Leone se retirava em oração e que foi renovado posteriormente. Há ainda a Igreja da Madonna di Loreto e bem perto da cidade está o Mosteiro e Convento de Sant'Igne que dizem ter sido fundado por São Francisco de Assis no século 13.







 


Fortaleza medieval: A antiga cidade foi um local de inúmeras batalhas até tornar-se um conselho dos condes de Montefeltro que tinham muita influência na política. A fortaleza medieval foi redesenhada em 1479 por ordem de Federico Montefeltro III, quando foram reprojetadas as torres circulares e a parede defensiva.

Quando o ducato passou aos domínios dos Estados Pontífícios em 1631, a fortaleza foi convertida numa prisão para os inimigos do Papa. Com diversos aposentos, atualmente o enorme castelo funciona como museu.


Contendo várias exposições, existem alguns instrumentos de tortura que eram usados de forma cruel contra os condenados. O calabouço é o local mais profundo, úmido e sombrio da construção, onde uma energia densa incomoda as pessoas mais sensíveis.

Durante a Idade Média, quando os alquimistas eram perseguidos pela Igreja Católica e acusados de bruxaria em virtude de suas experiências químicas, nas celas da Fortaleza de San Leo foram encarcerados inúmeros alquimistas e pessoas ligadas à maçonaria. Mas nenhum se tornou mais famoso do que o enigmático Cagliostro, a quem é dedicada uma sala com suas antigas peças de alquimia.





Cagliostro: Cagliostro foi um lendário aventureiro italiano, cuja vida é envolta em muitos mistérios, além de rumores de charlatanismo e fraudes. Reverenciado por uns e odiado por outros, lendas e calúnias se acumularam a seu respeito. Possuidor de uma fortuna que ninguém nunca soube de onde provinha, diziam que ele tinha poderes especiais de cura o que enciumava os médicos da época.

Sendo muito hábil e falante, ele ganhou fama como um médico, alquimista, hipnotizador, esotérico, necromante, maçom e foi acusado de heresia e bruxaria tendo sido excomungado pelo Papa. Considerado um grande mestre do ocultismo, Cagliostro permaneceu como um mistério, assim como as suas relações com a Alquimia, Hermetismo e a Maçonaria.




Cagliostro em Palermo: Alguns afirmam que ele nasceu em Palermo em 1743 e teve boa educação, tendo demonstrado desde a sua infância seu caráter rebelde e grande interesse pela química e ervas medicinais. Na adolescência foi enviado a um convento beneditino, tornou-se assistente de um farmacêutico onde aprendeu alguns princípios da química. Porém envolveu-se com um bando de vagabundos e abandonou seus estudos.

Em Palermo conheceu um ourives chamado Marano que era supersticioso e acreditava cegamente na eficácia da magia. Cagliostro mostrou-se conhecedor de ocultismo e evocador de espíritos, convencendo a Marano que havia descoberto um tesouro escondido sob o Monte Pellegrino através de cerimônias mágicas. Porém dizendo que precisava de ouro e prata para buscar o tesouro, o ambicioso Marano logo propôs financiar a exploração.

À meia-noite aos pés da montanha Cagliostro encenou vários encantamentos, mas quando se preparavam para escavar os comparsas de Cagliostro atacaram Marano tomando sua fortuna. Apesar de acusado de roubo e traição, Cagliostro afirmou tudo tinha sido obra das criaturas mágicas das montanhas e fugiu. 





Charlatanismo de Cagliostro: Ele afirmava que em sua adolescência havia conhecido um Althota que prometeu ensinar-lhe alquimia. Interessado naquele personagem que tinha habilidades divinatórias, ele acompanhou-o em visitas ao Egito, à Persia e à Russia.

Segundo contava, teria ido a diferentes lugares, visitado as pirâmides, templos, passando por reinos da África e da Ásia até que o Althota desapareceu misteriosamente. Chegando em Roma Cagliostro estabeleceu uma fraudulenta prática médica, onde prometia distribuir os seus elixiris para a cura de diversas doenças a altos preços.

Nessa época conheceu e casou com a bela jovem Lorenza Feliciani, já que o pai dela estava deslumbrado com a aparente riqueza de Cagliostro. O casal viajou por diversas cidades da Europa enganando incautos estrangeiros com a promessa de cura através de poções mágicas, além do tal Elixir da Juventude e do segredo da Pedra Filosofal.




Caligostro em Paris: Em Paris Cagliostro atraia atenção com seu suposto conhecimento de alquimia, numa época em que florescia o entusiasmo pelo misticismo na Europa. Príncipes, bispos e a nobreza estavam ansiosos para sondar os segredos da natureza e da alquimia.

Fazendo-se passar como Conde Alessandro dei Cagliostro, seus elixires e poções o tornaram famoso entre a nobreza, inclusive chegando a medicar o rei da França e sua corte real. Alguns consideravam suas curas como milagres, outros como feitiçarias enquanto ele próprio afirmava que eram efetuadas pela ajuda celestial.

Em Paris assumiu o papel de Mestre da Magia evocando fantasmas através de espelhos. Isolando-se com sua esposa, mantinha o mistério em torno deles. A elite parisiense competia para estar presente em suas sessões de magia, que eram consideradas uma diversão na evocação de mortos ilustres. 

Estabelecido em Paris mandou adornar o hall da entrada com mármore preto e decorou o ambiente com estatuetas de Isis, Anubis e Apis cobrindo as paredes com hieróglifos egípcios. Cagliostro recebia seus convidados com um robe de seda preta e um turbante árabe dourado adornado com joias.





Experiências de Cagliostro: Comentava-se que ele transformava chumbo em ouro e rochas em pedras preciosas. Seus serviçais vestiam-se como escravos egípcios e toda essa excentricidade encantava a elite francesa. Mas a descoberta mais mórbida foi seu singular sistema para atingir a imortalidade.

Depois de ver que as lagartas se convertiam em borboletas ao se encerrar em um casulo, Cagliostro tentava convencer as pessoas de que esta era a chave para uma regeneração natural. E assim sua experiência era feita encerrando uma pessoa numa bolsa feita de lençois e pendurada no teto para que permanecesse regenerando, tendo apenas caldo de frango como alimentação.

Em sua teoria, Cagliostro afirmava que os pacientes renasceriam belos e jovens. Inúmeros voluntários se ofereceram para provar do tal tratamento, sofrendo com os piolhos, infecções, perdendo os cabelos e os dentes. Na verdade os desafortunados voluntários acabavam sofrendo de escorbuto e os que conseguiam sobreviver nunca mais conseguiam se recuperar. Isso tornou Cagliostro desacreditado.

 
 


Cagliostro em Londres: Alguns consideravam Cagliostro como um dos maiores ocultistas de todos os tempos, outros diziam que ele era um grande charlatão. Inúmeras vezes seu nome foi envolvido em fraudes, enganos, roubos e subornos. Em Londres conheceu o Conde St. Germain e foi iniciado na Maçonaria, quando teve a ideia de ganhar dinheiro com isso.

Contam que ele apareceu com um manucristo dizendo conter os mistérios da Maçonaria Egípcia e fundou várias lojas maçônicas. Alguns suspeitavam que ele próprio teria forjado o documento. Coletando muito dinheiro, ele partiu para San Pettsburgo onde se estabeleceu como médico. 

Algum tempo depois o casal foi para Roma sendo recebidos pelos cardeais, mas seu erro foi tentar promover suas ideias maçônicas dentro dos limites dos estados papais além de outras denúncias feitas por sua esposa. Preso por ordem da Santa Inquisição, em 1789 Cagliostro foi sentenciado à morte sob a acusação de magia, blasfêmias contra o culto da religião católica, lenocínio, falsidade ideológica, fraudes e calúnias. 




Prisão na Fortaleza de San Leo: Depois de uma curiosa visita de um desconhecido em audiência privada, o Papa suspendeu a execução de Cagliostro determinando que ele fosse levado para a prisão perpétua na Fortaleza de San Leo. Na época o acesso à fortaleza era feito somente por meio de um cesto suspenso por roldanas, um modo primitivo de elevador.

Encerrado numa minúscula cela, da pequenina janela Cagliostro só tinha a visão da torre da igreja. De tempos em tempos seus algozes vinham propor-lhe para esquecer suas ideias maçônicas, converter-se à Igreja Católica e ser libertado, mas ele sempre recusava.

Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas dizem que em 26 de agosto de 1795 o falso Conde Cagliostro desapareceu misteriosamente. Apesar de sua conturbada vida pregressa, mais de 100 anos depois de sua morte a teóloga Helena Blavatsky escreveu que Cagliostro foi o último dos verdadeiros rosa-cruzes.

 

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.